terça-feira, 26 de abril de 2011

Na boca dos outros.

"O Richard era um homem fascinante. Tinha mãos de cardíaco e pés de barro, mas eu amava-o com a certeza de que seria o último homem da minha vida. Porque me fazia rir. Porque me desejava às horas mais absurdas do dia, entre parágrafos. Porque vivia em desespero constante e eu achava que podia salvá-lo. Porque usava camisas cor-de-laranja, roxas e encarnadas e calçava meias de cores diferentes. Porque foi hippy, teve aulas de ballet, foi actor, operário das obras, jornalista, alcoólico, desregrado. Porque me levou aos extremos e me obrigou a sair de dentro de mim mesma."

- Tânia Ganho, A vida sem ti.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Por cá quer-se laranja.

Oysho, Summer is Colour, 2011.

sábado, 2 de abril de 2011

Tua, singularidade.

Não é a forma como me beijas, nem tão pouco sobre sexo. Não tem a ver com o teu corpo largo, as tuas mãos acolhedoramente grandes. Quando me vês sorrir, sempre que te aproximas, teimas em pentear o cabelo com os dedos, como se fizesse troça dos caracóis que começas a ter. Dizes que os pegaste dos meus, aos caracóis. Dizes que os pegaste dos meus, aos sorrisos. Mas não tem a ver com o teu cabelo, nem com o teu sorriso. Não é por ser tão grande a tua língua, nos dias em que tento crescer a minha esticando-a até à ponta do queixo. Não, não é a mania que tens de me pegar ao colo em público, como um peso morto ao ombro, animado apenas pelo espernear de pousa-me-no-chão. Não é a nossa ridícula diferença de alturas. As tuas gargalhadas quentes como as tardes de verão em que nos enamoramos, ainda que respiravelmente boas, não são para aqui chamadas. Não, não falo do teu riso nem de quando te vi chorar pela primeira, e quase pontual, vez. A vulnerabilidade de quando um homem se expõe e se destaca da imagem que alguém um dia disse de ser inabalável e alfa, é extraordinariamente fascinante. Tu és um ser extraordinariamente fascinante e há esta coisa, esta pontual singularidade tua, que te excepciona de todos os outros. De qualquer outro homem, qualquer outro amor. Não é a paixão com que me presenteias com apostas de jantar por dá cá aquela palha - "Quanto queres apostar que foi n'A Regaleira que se inventaram as primeiras francesinhas? Um jantar?" - nem aquele chocolate quente perto do rio. Tão pouco tem a ver com a desinibição com que canto no chuveiro, quando estás por cá. A vulnerabilidade de quando uma mulher se expõe e se despe da imagem que alguém um dia disse de ser sensual e composta, é extraordinariamente fascinante. E é o fascínio que vejo nos teus olhos. É isso. A forma como me olhas, esteja de vestido curto ou fato-de-treino, como se não soubesses distinguir as duas. Corte o cabelo e o pinte de preto, estique eu os caracóis que tanto adoras, tu fitas-me sempre com esse ar espantado de quem se apaixona pela primeira vez. Conheces os sinais que pintalgam o meu resto e ainda te entusiasma confirmares que não foi desta que fugiram da minha pele, aqueles dois nivelados um nada abaixo de cada olho. É o teu olhar, sempre que vou ter contigo. Quando genuinamente berrei "Sou a primeira no quarto-de-banho!", a primeira vez que passamos uma noite fora, e outra vez aquele brilho nos teus olhos. Como se tivesse acabado de aclamar o meu amor por ti aos deuses. É o teu olhar, todas as vezes que vais ter comigo. Quando pinto as unhas do vermelho-coração que te cativou naquele mês de agosto, e marco jantar a meia-luz com música doce de fundo. E o fascínio com que me miras, como se nunca me tivesses visto mais bonita, mais real, mais tua. Mais apaixonada. E tu, sempre com esse ar de quem não sabe como meter conversa com a mulher que te pega caracóis como se sorrisos. Esse teu ar embaraçado que me deixa sem jeito, por contagiar. Por pegar nesse teu fascínio genuíno, ingenuamente. Por amor autêntico, como se da primeira vez.