domingo, 27 de março de 2011

Voltas do avesso.

Voltei a ser esta mulher. Voltei a ser esta mulher que mente e se esquiva porque não quer mostrar o que tu fizeste dela. Voltei a ser esta mulher que te faz a cama e te prepara lanches, quando só tem tempo para um curtinho café.
Voltei a ser aquela mulher. Explico-to, para que o percebas: Antes de te conhecer tinha corrido milhas. Sozinha, sem prestar atenção ao sentido que o vento tem. Porque o único sentido que o vento tem é não ter sentido nenhum. Eu defini o meu: seria rocha em vez de vento. Sólida, firme, propositada. Porque as rochas têm sentido propósito. Ciclos e características próprias, suas. Carbonatadas, coesas que baste. E, pensando ser rocha, deixei de ser a mulher que vai em conversas de "gosto muito de ti, mas gostava mais se". As rochas não toleram ses, não os compreendem porque são coesas que baste. A compreensão da rocha não existe - isso são coisas metafísicas, da alma. E as rochas não têm alma. Eu não precisava de uma, só tinha de correr aquelas milhas definidas. Sólidas. Firmes. E depois apareceste tu. Tu e a tua conversa carbonatada de "gosto muito de ti". Sem ses, e ainda assim com a alma toda. Eras metafísico, ainda que palpável. Faltavas-me, não porque me falhasses, mas porque me fazias falta. E as rochas não sentem saudades - as rochas não sentem, ponto. Tu deste-me metafísica que baste para lhe chamar de coração. Coração como se vento, em palavras por ti ditas fosse em que sentido quisesses. Porque às vezes, as palavras, têm tanto de sentido quanto sentido o vento tem. Que é nenhum, para quem não prestou atenção. E roubaste-mo, ao sentido. Não precisava de correr, porque tinha agora companhia para caminhar. Vento, voltei a ser a mulher que caminha, sabendo que só tem tempo para correr.
Voltei a ser esta mulher. Voltei a ser esta mulher que não consegue negar-te porque tens uma prima adorável e o teu sorriso é encantador. Voltei a ser esta mulher sem rumo se não estás nele. E o sentido disso é nenhum. Explico-to para que o percebas: Vento, voltei a ser a mulher que incompreensivelmente te faz a cama e te prepara lanches.
Voltei a ser esta mulher. Esta mulherzinha...

...Merda.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Friday

.. I'm in love.

sábado, 12 de março de 2011

Geração à Rasca, à rasquinha.

Eu não estou à rasca, nem enrrascada. Eu não sou contra os ideais que hoje vão ser apregoados nas ruas do Porto e Lisboa, mas nunca os vi tão gerais em greve que fosse. “Vamos mudar o Governo!” quando sei que tantos vão porque diz no facebook que é ser-se fixe e revolucionário, para mais há amigos e cerveja. Porque é muito giro ser-se chamado de “deolindas”, como já ouvi em adjectivo, juntar manifestações todas no mesmo saco das redes sociais e confundir a opinião pública, para depois sentar no sofá e dizer que a política é uma merda, enquanto esperam pelo dia de hoje no calendário marcado a cruz. Tentaram um movimento pelo facebook, a ver se colava. E porque o maldito Governo não consegue absorver os recursos humanos da procura, e toda a gente adora dizer que está mal e que o país é uma vergonha, colou. Pegou, à rasquinha.
Eu? Eu enquanto souber que os meus pais travaram lutas bem mais dificeís, apertados e à rasca, sem nunca se chamarem de parvos, fico antes a estudar em casa, para depois não ser de uma Geração de Rasca.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Fantasmas debaixo dos nossos lençóis.

Pergunto-te quem te feriu, sabendo que nunca me deixarias ver-te as cicatrizes. Lembro-me de quando, por acidente, te toquei nas costelas salientes que trazes abaixo do coração
- O que é isto?
- Não é nada
Disseste-o de uma assentada, como quem esconde costelas dentro de uma gaveta. Mas, porque me sabes curiosa, deitaste-te ao meu lado e respiraste fundo. Lembro-me de como respiravelmente aceitaste que eu visse melhor. O esforço audível naquele teu profundo suspiro, fechando os olhos a meio termo. Levantei-te a camisola devagar, devagarinho, voltei a passar mão no teu tronco largo. Os meus dedos muito abertos, cautelosa e carinhosamente descendo do teu peito. Do teu coração, pulsando amedrontado. Abri a gaveta e deixei a descoberto os teus fantasmas. Deitavam-se ali, na tua cama, no teu ventre. No meio de nós.
Beijei-te o tronco, demorei-me nas tuas costelas, que agora percebia partidas. Depressa inspiraste fundo, encolhendo a barriga e fazendo peito, para que parecesse que as tens salientes dos dois lados. Cortaste respiração, para que parecesse que não respiras medo de uma ferida que não sarou, porque a trazes contigo, abaixo do coração
- Está tudo bem.
Disse-to vagarosamente, como se engenhosamente fosse desmontar a gaveta. Tirar-lhe parafusos e roscas, separar as pequenas tábuas como divisões que te separam de mim. O teu medo, os teus fantasmas, paredes altas entre nós. Paredes de uma madeira oca, que te impede de ouvir as minhas rezas e bênçãos. A ti, meu amor. A nós. Eu, muito pequenina, na tua gaveta, salvaguardada. A ouvir os uivos das tuas cicatrizes, que cortas cada vez que inspiras fundo e fazes peito.
Beijei-te os ossos que tentam escapar-se do teu corpo, como se o teu coração ocupasse espaço demasiado. Demasiadamente grande, esse teu bom e esmurrado coração. Este teu tão maltratado ventre.
Abraças-me. Lembro-me de como não me quiseste explicar bem quem te desarmou ossos, como se parafusos de gavetas.

- Mas quem te feriu?
Pergunto sabendo que nunca mo explicarás bem. És cómoda alta, de um robusto carvalho onde desenharam infindas gavetas. Fantasmas, como se traças. Em ti, meu amor. E no meio de nós.
De uma assentada
- Não é nada
apressas-te a dizer.

Ferida.

Tenho a alma em crostas pequeninas que não regeneram carne, porque insistes em levantá-las, espreitando, só para te certificares que ainda sangro.