quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Desejo.

Desejo. É uma coisa engraçada e dá-se-lhe pouco apreço. No amor todos querem espetar o dedo, como quem gira um globo de plástico e o pára só para dizer "Estive aqui!", apontando para um sítio do planeta. "Amei aqui!", dedo espetado na ferida que esse bastardo tem por costume deixar. Do desejo fala-se pouco: levantam-se mãos que “Não fui eu!”. Varre-se para debaixo do tapete, desligam-se as luzes antes de o cumprimentar, porque ai de quem lhe veja os olhos. O seu lado lunar, pulsando vaidades animalescas que ninguém consegue pintar em alegorias. O amor ensina-se às crianças; sexo tem idade. Podemo-nos apaixonar aos 4 anos e seremos idolatrados do infantário à reforma – é história de se gabar aos netos. Se aos 4 fala de sexo, é prematura e dir-se-á promíscua até aos 30 – e só os pais saberão o pudico e secreto incidente. Contam-se romances e interioriza-se que o amor é uma coisa tão agradável que não lhe bastam todas as metáforas nem suficientes lhe são todas as líricas. O amor é como um suminho de laranja natural, apetece. A apregoada imagem de um casal idoso que dá as mãos, passeando na rua, comove mundos. Imaginam-se enredos, de uma paixão proibida, restringida, e um amor que vinga incondicional e independentemente. Não há histórias da luxúria na primeira pessoa, os contos exigem coerência que o desejo não tem. Desejo-te. Não se diz. É comprido demais, tem muitas sílabas, não fica bem em inglês e certamente se perde nas traduções para o francês. Roça o pornográfico se virmos por línguas espanholas. Cai em desuso, porque áspero. O desejo é como um limão, não se lhe pode trincar que incomoda até às vísceras. Até faz parecer que não se gosta de uma pessoa: queremo-la. E se "quero-te bem" é amoroso, "quero-te", assim, sozinho, desnudo, já parece capricho. Mas queres porquê? Egoísmo, pela certa! E ai dos Homens que se prestem a vanglórias, olhem o amor que é altruísta! Coisa bonita! Existe para lá do corpo e... morre sem ele. Porque dêem-me quantas líricas queiram, poética que o seja, não vejo amor sem desejo. Sem um "chega-me para cá essas pernas, mulher!" ou um agarrar de unhas cravadas nas costas dele, porque se o deseja por inteiro. Só havendo laranjas, não nos sai da cabeça a imagem amarela e reluzente daquele limão - Trinca-me.
E porque é o que mais nos aproxima dos animais, é o que mais nos assusta. Julgamo-nos tão racionais e, no final de contas, tão especiais... que nos esquecemos que é o desejo que nos alimenta o amor. Impropriamente, o Amor Próprio - rei de todos os outros.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Olhos em chama, coração em lágrimas.

Falo de ti como se fosses responsável pelo sol de Verão. Conto feitos teus como se pintalgar o céu de estrelas fosse um deles. E os meus olhos brilham, quando falo de ti, como se estrelas realmente fossem. Estrelas brilhando, da combustão de sonhos que implantas como se sementes. E fumo que foge do ardor que me vai no peito cada vez que me contam de ti. Ninguém com a mesma paixão que me quebra a língua em adjectivos que te engrandeçam. Que te glorifiquem. Fumo dos teus feitos, os verdadeiros, para que ninguém veja que és tu o pirómano que incendeia corações como matas áridas. Corações secos, estalando aos teus passos, que elogias como estrelas - para depois lhes pegares fogo e fugires. De longe, e em segurança, assistes ao espectáculo avermelhado como se não tivesses sido tu a chegar-lhe faúlha. Ao coração em combustão, fumo de sonhos em cinzas. O meu, quebrado em lembranças que te afamem. Histórias que engrandeçam, formiga.

Verão. Estrelas. Os teus olhos. Sonhos. Paixão. Glória. A tua língua. Coração. O meu, porque o teu nunca mo deixaste ver, sempre a salvo. Nunca desprotegido, foi bosque virgem que nunca teve lenha por onde arder.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Bom Inverno.

Apaixonava-se a cada Inverno. Havia qualquer coisa no corpo frio, a pedir outro a que se pudesse aquecer. Qualquer coisa de acolhedor num coração ecoando batimentos no escuro dos dias curtos. Coração choramingando nas noites intermináveis. O Inverno era a sua Primavera. O vento seco cortava-lhe o estômago como borboletas irrequietas e as árvores despidas lembravam-lhe a crueza de uma solidão ignorada. No Inverno, o amor estava a nu e a cru. Sem flores nem floreados, e a realidade não tinha por onde se iludir nas ruas frias desnudas. E, se amor encontrasse, amor seria.
Lembra-se perfeitamente de teres sido a sua prelecção naquele fim de ano. Havia qualquer coisa de reconfortante no teu corpo, quente como a tua voz do sul. E as tuas palavras eram cheias como frutos que o Inverno não deixava maturar. Palavras que lhe enchiam a boca de um sumo que não a autorizaste a provar dos teus lábios. Foste tu o primeiro a dizer que da tua boca beijaria tão-só a distância. Porque no Inverno, ao contrário da Primavera, a verdade fala mais alto - faz frio demais para mentir. Coração cantando na tarde em que a fizeste pensar que era Agosto. E a tarde tão curta, tão curta, tão mais curta que as habituais de Novembro, já curtas de si...
Sem flores nem floreados, a verdade é que se apaixonara por ti naquele Inverno. Aquele Novembro frio, caloroso tão-só na ponta dos teus dedos, segurando o cigarro à varanda. E no seu corpo, pedindo o teu para que se pudesse manter quente.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Não contes a ninguém.

O teu suor pinga sobre o meu rosto. Gotas como se chumbos, pingando nos meus olhos, nos meus lábios, na minha testa. E a minha testa enrugada de dor, os lábios gretados do metal que jorras como se gotas. Os olhos muito abertos, como a boca incapaz de gritar. O teu corpo balançando sobre o meu, arfando cadências certas qual lobo faminto. Esperneio em vão - as tuas mãos fortes seguram-me as coxas, que jazem ocas ao lado das tuas. Asas quebradas e o teu corpo balançando sobre o meu, a satisfação estampada na tua língua repousada ao canto da boca. E um esgar dos teus lábios que sorriem, pedindo-me que fique quieta. Ordenando-me, entre cadências da tua respiração metálica e o teu suor pesado. O meu corpo tingido pela tua ganância, a tua voracidade. Atroz o acto a que chamam de amor e que matas, segurando-me a anca com força. Ossos partidos e tu que respiras perto do meu ouvido, lambes as minhas lágrimas de uma assentada. Satisfaz-te a minha dor, vês a minha vida fugir-me pelos olhos. E os olhos muito abertos, vendo o teu corpo em oscilações de prazer doentio. Prazer doente, viva dor. Alucinante dor que me rasga a carne, jorros de sangue como linhas até ti. Há clarões que vejo no quarto, quando nem sei se dia é. Talvez seja Deus que me busque. Ou o Diabo, teu comparsa, que me fotografe. Oiço as batidas do teu coração em estereofonia, se por coração o podemos tratar. E o esgar do teu sorriso, querendo-me outra vez. As tuas mãos sabem perfeitamente onde pousar, deixaste marca funda da primeira vez. E o corpo tinge-se, em chumbo que se alastra em pisaduras esverdeadas, musgo da alma que me cobre as veias mortas.
Tenho o rosto encharcado quando por fim me soltas. A cara mergulhada em ácido que não sei se do teu suor se do meu choro. O coração que jaz oco ao lado dos meus pulmões. E os pulmões vazios de ar, de tudo, num esgar do teu sorriso satisfeito. Veste-te e tocas-me na perna - não me vais deixar.
Volto-me e vomito-te a cama. Insultas-me uma vez, duas, três. Empurras-me para fora dela, o meu corpo que obedece aos teus gestos bruscos. Ao teu corpo vil, atroz. O quarto está escuro, talvez seja noite. Lá fora, cá dentro, do lado esquerdo do peito. O peito mutilado, como o corpo que lateja e sangra. E o teu corpo no indistinto, vociferando uivos que não compreendo. Não vês? Eu nunca te fui, nunca por tua me pudeste tratar. Eu nunca fiquei. Eu nunca sequer cá estive. Se alguém te disser o contrário, não vás em pesadelos do demo.