terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Ignorância é felicidade. Só não é para sempre.

Vivemos um amor doente, porque o meu coração te foi doentio. Hoje sei porque vagueei na tua demência: quis o meu coração à tua medida. Quis o peito a pulsar ao ritmo que trauteavas, distraído de mim. E quando me chamavas de amor quis pensar que era amor que sentias. António Lobo Antunes tem um dito de que gosto muito, sobre o amor ser uma coisa e a relação outra. Diz que quando dois estão na cama, estarão, certamente, quatro: o casal e os respectivos pares que fazem do outro. Personagens fictícias que imaginam para o que não conseguem ver do outro: o dentro, a alma. Na nossa cama não fomos nem uma coisa nem outra. Nem amor nem relação, nem dois nem quatro. Fomos vinte e sete. Via-te tão-só a ti, nu, entregue ao meu coração despido de cânticos que não os teus assobios. Imaginava-te, tão-só. E tu não precisaste fazer outra pessoa de mim. Riste-te de António Lobo Antunes, tolo. E trouxeste então outras pessoas à nossa cama. Tu deste o corpo pela alma. Foi como matares a minha. Foi como dizeres ao meu coração "Estou farto dessa música" e responderes indignado, mal o meu assustado choramingasse "Mas estavas sempre a assobia-la!", que só a trauteavas porque te ficou presa na cabeça, um dia que não sabes precisar, como um anúncio absurdo que não suportas ouvir. Se a ignorância me foi felicidade? Sim. Enquanto durou a mentira, enquanto confundi o mistério com os teus segredos sujos. Porque me fascinava o nevoeiro místico em que envolvias, o mesmo que me havia de asfixiar em ar rarefeito. Admirava as tuas meias-frases, as palavras cortadas como um vento nórdico, porque te via sábio. Pensante, filósofo, criativo. Rio-me agora quando penso que estás a anos-luz de qualquer uma dessas virtudes. Sabes o que é um ano-luz, querido? Não, não me punas o riso oco ou o sarcasmo amargo que te cuspo se me dirijo a ti. E olha que não me falta vontade de te bater à porta só para te dar com ela. Só para te responder, indignada, que és lastimável, como foi o meu coração por ti. E como o é o que dele sobrou: uma lástima. Dizer-te que me envergonho de ter achado que eram os escrúpulos que te davam esse corpanzil cheio que gostas de exibir. Pavão, tolo. Achei que eras encorpado como uma prenda. És um saco do lixo. Dos que trazem um elástico que rompe à minima tentativa de fecho. Corrompeste-te. E corrompeste-me contigo. Vejo nevoeiros em céus abertos e desconfio de mulheres em solitudes.
Se é verdade que o que não nos mata torna-nos mais fortes, saí de ti invencível, porque quase morta. O que quer dizer, em ditos meus, que o amor não me pode mais vencer. E esse direito tu não tinhas - esse eu não to dei. Por isso reivindico-o todos os dias, em doses pequeninas, para que não me assuste com a liberdade que é, finalmente, poder respirar sem as tuas mãos na minha garganta.