domingo, 10 de julho de 2011

E não podia ser de outra forma.

Apaixono-me com uma facilidade… Não me apaixono porque pode ser, porque está bem então. Não. Apaixono-me porque não pode ser de outra forma, porque está tudo aflitivamente mal. Apaixono-me a voltagem máxima, no limiar do curto circuito. Apaixono-me facilmente. Digo, apaixono-me aflitivamente. Há esta urgência, em mim, de paixão. Não corro para o precipício, eu já lá moro. No limiar do terrestre e o volúvel. E há tantas coisas que me apaixonam… As histórias, as pessoas que as contam, os objectos que as guardam. Apaixona-me um livro, um poeta. Apaixona-me igualmente um ávido leigo, uma cadeira esculpida a suor e dedicação. Apaixona-me essa atenção. Apaixona-me a pressa das multidões e a acalmia de uma maré vaza. Apaixonam-me as contradições, porque me apaixona o Amor. Sou uma apaixonada. Fiel a nenhuma paixão, porque há esta urgência, em mim, de outra maior e mais capaz. Digo, leal a nenhuma, senão a uma - a tua.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

:)



quinta-feira, 2 de junho de 2011

Amor mas.

Não sei porque me assusto - não é como se já não tivesse estado aqui antes. Mas reconheço os sinais - é a Hora.
És novo nisto. Revejo-me na tua dor repentina que varre no peito e que te faz chorar quando a noite te esconde sozinho no quarto. Admiro-te as palavras de positivismo que tens quando o assunto vem à baila, porque não podia ser mais negativa quando o assunto, pairando, é o que vai ser de nós agora. E é novo para ti - não sabes, mas esperas. Anseias, nas insónias que a lua não mata enquanto te corrói a ti. E uma parte de ti, por muito pequena, pequeníssima, ínfima parte de ti, meu bem, resiste. Resiste porque tem esperança. Ah, essa bastarda! Vais esperar, vais esperançar que dê certo. Negas-te que é com essa esperança mísera que rezas os teus dias. Abençoas os meus. E quando der certo - porque há essa hipótese, mesmo que infinitesimal, certo? - vais berras "EU SABIA!". Mas não sabes, então esperas. És novo nisto. Nisto do Amor.
Reconheço-te as fantasias de quando me dizes que vou casar sim, só não sei que o quero ainda. Admiro-te a ousadia de quando acrescentas "E vai ser comigo!". Sorris um orgulho ingénuo de quem anseia, esperançado, que haja a ínfima hipótese de eu querer ser tua o resto da vida. Para depois poderes gritar do altar: "EU SABIA!".

Mas és novo nisto e não sabes. Novo nas despedidas, novo no amo-te-mas-tenho-de-ir. E depois? Depois a lua não corrói, despreza-nos. Deixa-nos a apodrecer na cama escura, o quarto aos soluços, porque tem mais corações por onde se entreter a corroer esperanças em pó. E o mundo pára, porque teve-de-ir. Sabes para onde, mas de pouco te adianta. Queres correr o mundo e seguir-lhe rasto. Mas ele já partiu. Foi-se. Puf. E porque és novo nisto, digo-te: não tenhas esperanças. Porque o Amor tem-nas, mas vêm de mão dada com as despedidas. Ah, essas bastardas! Vão-te fazer chorar esses bonitos olhos fora e hão-de matar as leis por que se regem os meus. As leis que escrevemos, em cinzas. Porque o Amor tem-de-ir. Puf. E eu sinto-o. Assusto-me, porque reconheço os sinais - é a Hora, meu amor. E eu... eu sei-o.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dia da Criança.

Hoje brindemos às crianças. À pequenada, aos pernas-curtas. Aos quatro-olhinhos, às trancinhas e às corridas. Aos espertalhões e aos sempre-em-pé. Aos arranhões nos joelhos e aos rebuçados. Brindemos às gargalhadas e aos choros por dá-cá-aquela-palha. Brindemos à inocência e à ingenuidade, porque as crianças ainda não conheceram outra coisa. Ainda não tiveram tempo para nada, só para comer e correr e rir. Um brinde ao tempo que não tiveram e um brinde ao tempo que ainda vão ter! Um brinde à possibilidade que a infância traz consigo. A sensação de que se pode ser tudo, de engenheiro a astronauta, e de cabeleireira a presidente, porque ainda não se é muito. E é-se uma benção tão grande.. Um brinde de todos os géneros às crianças de todas as formas e um beijo de todas as formas às crianças de todos os géneros. Brindemos à esperança que elas representam, porque a trazem consigo no seu puro coração. E o coração ainda por maturar, o coração em bruto. Que sejam felizes, meus seres em miniatura, porque só assim serão eternamente bons.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O amor e a cegueira.

Acordava-te a meio da noite para te pedir que não me acordasses. Tinha sido um dia produtivo e queria poder dormir pela manhã, explicava-te. Como era má. Friorenta, cobria-me com os cobertores todos e pedia-te que me fosses buscar uma manta para os pés. Como era egoísta. Pela manhã servias-me o pequeno-almoço tardio à cama e aborrecias-me. Não tinha fome, tinha calor. Tantos cobertores, credo! E o meu credo sempre mau, sempre comodista. Sempre irreflectido, sempre mandatório. Abre as persianas porque já é tarde, não ligues as luzes que é de dia, não deixes o cão subir para o sofá. E eu amava o teu cão. Quando ele pôs o cone ao pescoço por se ter infectado no focinho, brincava que as palavras que lhe dirigia ecovam naquele plástico cilíndrico. Dizia "senta-a-a-a-a" e o cão sentava-se, ainda que confuso. Brincava com o teu cão, ainda que só nas vezes que tivesse certeza que não verias. Quando estivesses a abrir persianas da sala, a fechar a torneira da cozinha que deixei a pingar. Como era obstinada, como fui mimada. E tu achavas-me graça, tamanha graça vias em mim. Julgavas que eu montava o acto de ser mimalha e embirrenta. E eu era naturalmente mimalha e embirrenta. Se te acordava porque queria dormir ou porque o teu braço me fazia calor na cintura, não estava a encenar - queria mesmo que não te atrevesses a acordar-me, ou a continuar naquela posição em que me fazias transpirar. E acordava-te quando dormias, naquela posição sereno e apaixonado. E abrias os olhos desprevenidos, para me veres cheia de graça em birras de mimo. O amor é, sem sombra de dúvida, o antídoto da cenoura. E não podias ver o mal que te fazia porque me querias tanto bem. Achaste que isto do amor era coisa recíproca. Como foste ingénuo.

sábado, 14 de maio de 2011

Think pink.

Oysho, Summer is Colour, 2011.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Balada de Despedida de Ciências 95.


Adeus querida faculdade, como pudeste deixar-me partir?
A vida parece ruir, com a dor que deixa a saudade.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Na boca dos outros.

"O Richard era um homem fascinante. Tinha mãos de cardíaco e pés de barro, mas eu amava-o com a certeza de que seria o último homem da minha vida. Porque me fazia rir. Porque me desejava às horas mais absurdas do dia, entre parágrafos. Porque vivia em desespero constante e eu achava que podia salvá-lo. Porque usava camisas cor-de-laranja, roxas e encarnadas e calçava meias de cores diferentes. Porque foi hippy, teve aulas de ballet, foi actor, operário das obras, jornalista, alcoólico, desregrado. Porque me levou aos extremos e me obrigou a sair de dentro de mim mesma."

- Tânia Ganho, A vida sem ti.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Por cá quer-se laranja.

Oysho, Summer is Colour, 2011.

sábado, 2 de abril de 2011

Tua, singularidade.

Não é a forma como me beijas, nem tão pouco sobre sexo. Não tem a ver com o teu corpo largo, as tuas mãos acolhedoramente grandes. Quando me vês sorrir, sempre que te aproximas, teimas em pentear o cabelo com os dedos, como se fizesse troça dos caracóis que começas a ter. Dizes que os pegaste dos meus, aos caracóis. Dizes que os pegaste dos meus, aos sorrisos. Mas não tem a ver com o teu cabelo, nem com o teu sorriso. Não é por ser tão grande a tua língua, nos dias em que tento crescer a minha esticando-a até à ponta do queixo. Não, não é a mania que tens de me pegar ao colo em público, como um peso morto ao ombro, animado apenas pelo espernear de pousa-me-no-chão. Não é a nossa ridícula diferença de alturas. As tuas gargalhadas quentes como as tardes de verão em que nos enamoramos, ainda que respiravelmente boas, não são para aqui chamadas. Não, não falo do teu riso nem de quando te vi chorar pela primeira, e quase pontual, vez. A vulnerabilidade de quando um homem se expõe e se destaca da imagem que alguém um dia disse de ser inabalável e alfa, é extraordinariamente fascinante. Tu és um ser extraordinariamente fascinante e há esta coisa, esta pontual singularidade tua, que te excepciona de todos os outros. De qualquer outro homem, qualquer outro amor. Não é a paixão com que me presenteias com apostas de jantar por dá cá aquela palha - "Quanto queres apostar que foi n'A Regaleira que se inventaram as primeiras francesinhas? Um jantar?" - nem aquele chocolate quente perto do rio. Tão pouco tem a ver com a desinibição com que canto no chuveiro, quando estás por cá. A vulnerabilidade de quando uma mulher se expõe e se despe da imagem que alguém um dia disse de ser sensual e composta, é extraordinariamente fascinante. E é o fascínio que vejo nos teus olhos. É isso. A forma como me olhas, esteja de vestido curto ou fato-de-treino, como se não soubesses distinguir as duas. Corte o cabelo e o pinte de preto, estique eu os caracóis que tanto adoras, tu fitas-me sempre com esse ar espantado de quem se apaixona pela primeira vez. Conheces os sinais que pintalgam o meu resto e ainda te entusiasma confirmares que não foi desta que fugiram da minha pele, aqueles dois nivelados um nada abaixo de cada olho. É o teu olhar, sempre que vou ter contigo. Quando genuinamente berrei "Sou a primeira no quarto-de-banho!", a primeira vez que passamos uma noite fora, e outra vez aquele brilho nos teus olhos. Como se tivesse acabado de aclamar o meu amor por ti aos deuses. É o teu olhar, todas as vezes que vais ter comigo. Quando pinto as unhas do vermelho-coração que te cativou naquele mês de agosto, e marco jantar a meia-luz com música doce de fundo. E o fascínio com que me miras, como se nunca me tivesses visto mais bonita, mais real, mais tua. Mais apaixonada. E tu, sempre com esse ar de quem não sabe como meter conversa com a mulher que te pega caracóis como se sorrisos. Esse teu ar embaraçado que me deixa sem jeito, por contagiar. Por pegar nesse teu fascínio genuíno, ingenuamente. Por amor autêntico, como se da primeira vez.

domingo, 27 de março de 2011

Voltas do avesso.

Voltei a ser esta mulher. Voltei a ser esta mulher que mente e se esquiva porque não quer mostrar o que tu fizeste dela. Voltei a ser esta mulher que te faz a cama e te prepara lanches, quando só tem tempo para um curtinho café.
Voltei a ser aquela mulher. Explico-to, para que o percebas: Antes de te conhecer tinha corrido milhas. Sozinha, sem prestar atenção ao sentido que o vento tem. Porque o único sentido que o vento tem é não ter sentido nenhum. Eu defini o meu: seria rocha em vez de vento. Sólida, firme, propositada. Porque as rochas têm sentido propósito. Ciclos e características próprias, suas. Carbonatadas, coesas que baste. E, pensando ser rocha, deixei de ser a mulher que vai em conversas de "gosto muito de ti, mas gostava mais se". As rochas não toleram ses, não os compreendem porque são coesas que baste. A compreensão da rocha não existe - isso são coisas metafísicas, da alma. E as rochas não têm alma. Eu não precisava de uma, só tinha de correr aquelas milhas definidas. Sólidas. Firmes. E depois apareceste tu. Tu e a tua conversa carbonatada de "gosto muito de ti". Sem ses, e ainda assim com a alma toda. Eras metafísico, ainda que palpável. Faltavas-me, não porque me falhasses, mas porque me fazias falta. E as rochas não sentem saudades - as rochas não sentem, ponto. Tu deste-me metafísica que baste para lhe chamar de coração. Coração como se vento, em palavras por ti ditas fosse em que sentido quisesses. Porque às vezes, as palavras, têm tanto de sentido quanto sentido o vento tem. Que é nenhum, para quem não prestou atenção. E roubaste-mo, ao sentido. Não precisava de correr, porque tinha agora companhia para caminhar. Vento, voltei a ser a mulher que caminha, sabendo que só tem tempo para correr.
Voltei a ser esta mulher. Voltei a ser esta mulher que não consegue negar-te porque tens uma prima adorável e o teu sorriso é encantador. Voltei a ser esta mulher sem rumo se não estás nele. E o sentido disso é nenhum. Explico-to para que o percebas: Vento, voltei a ser a mulher que incompreensivelmente te faz a cama e te prepara lanches.
Voltei a ser esta mulher. Esta mulherzinha...

...Merda.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Friday

.. I'm in love.

sábado, 12 de março de 2011

Geração à Rasca, à rasquinha.

Eu não estou à rasca, nem enrrascada. Eu não sou contra os ideais que hoje vão ser apregoados nas ruas do Porto e Lisboa, mas nunca os vi tão gerais em greve que fosse. “Vamos mudar o Governo!” quando sei que tantos vão porque diz no facebook que é ser-se fixe e revolucionário, para mais há amigos e cerveja. Porque é muito giro ser-se chamado de “deolindas”, como já ouvi em adjectivo, juntar manifestações todas no mesmo saco das redes sociais e confundir a opinião pública, para depois sentar no sofá e dizer que a política é uma merda, enquanto esperam pelo dia de hoje no calendário marcado a cruz. Tentaram um movimento pelo facebook, a ver se colava. E porque o maldito Governo não consegue absorver os recursos humanos da procura, e toda a gente adora dizer que está mal e que o país é uma vergonha, colou. Pegou, à rasquinha.
Eu? Eu enquanto souber que os meus pais travaram lutas bem mais dificeís, apertados e à rasca, sem nunca se chamarem de parvos, fico antes a estudar em casa, para depois não ser de uma Geração de Rasca.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Fantasmas debaixo dos nossos lençóis.

Pergunto-te quem te feriu, sabendo que nunca me deixarias ver-te as cicatrizes. Lembro-me de quando, por acidente, te toquei nas costelas salientes que trazes abaixo do coração
- O que é isto?
- Não é nada
Disseste-o de uma assentada, como quem esconde costelas dentro de uma gaveta. Mas, porque me sabes curiosa, deitaste-te ao meu lado e respiraste fundo. Lembro-me de como respiravelmente aceitaste que eu visse melhor. O esforço audível naquele teu profundo suspiro, fechando os olhos a meio termo. Levantei-te a camisola devagar, devagarinho, voltei a passar mão no teu tronco largo. Os meus dedos muito abertos, cautelosa e carinhosamente descendo do teu peito. Do teu coração, pulsando amedrontado. Abri a gaveta e deixei a descoberto os teus fantasmas. Deitavam-se ali, na tua cama, no teu ventre. No meio de nós.
Beijei-te o tronco, demorei-me nas tuas costelas, que agora percebia partidas. Depressa inspiraste fundo, encolhendo a barriga e fazendo peito, para que parecesse que as tens salientes dos dois lados. Cortaste respiração, para que parecesse que não respiras medo de uma ferida que não sarou, porque a trazes contigo, abaixo do coração
- Está tudo bem.
Disse-to vagarosamente, como se engenhosamente fosse desmontar a gaveta. Tirar-lhe parafusos e roscas, separar as pequenas tábuas como divisões que te separam de mim. O teu medo, os teus fantasmas, paredes altas entre nós. Paredes de uma madeira oca, que te impede de ouvir as minhas rezas e bênçãos. A ti, meu amor. A nós. Eu, muito pequenina, na tua gaveta, salvaguardada. A ouvir os uivos das tuas cicatrizes, que cortas cada vez que inspiras fundo e fazes peito.
Beijei-te os ossos que tentam escapar-se do teu corpo, como se o teu coração ocupasse espaço demasiado. Demasiadamente grande, esse teu bom e esmurrado coração. Este teu tão maltratado ventre.
Abraças-me. Lembro-me de como não me quiseste explicar bem quem te desarmou ossos, como se parafusos de gavetas.

- Mas quem te feriu?
Pergunto sabendo que nunca mo explicarás bem. És cómoda alta, de um robusto carvalho onde desenharam infindas gavetas. Fantasmas, como se traças. Em ti, meu amor. E no meio de nós.
De uma assentada
- Não é nada
apressas-te a dizer.

Ferida.

Tenho a alma em crostas pequeninas que não regeneram carne, porque insistes em levantá-las, espreitando, só para te certificares que ainda sangro.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Desejo.

Desejo. É uma coisa engraçada e dá-se-lhe pouco apreço. No amor todos querem espetar o dedo, como quem gira um globo de plástico e o pára só para dizer "Estive aqui!", apontando para um sítio do planeta. "Amei aqui!", dedo espetado na ferida que esse bastardo tem por costume deixar. Do desejo fala-se pouco: levantam-se mãos que “Não fui eu!”. Varre-se para debaixo do tapete, desligam-se as luzes antes de o cumprimentar, porque ai de quem lhe veja os olhos. O seu lado lunar, pulsando vaidades animalescas que ninguém consegue pintar em alegorias. O amor ensina-se às crianças; sexo tem idade. Podemo-nos apaixonar aos 4 anos e seremos idolatrados do infantário à reforma – é história de se gabar aos netos. Se aos 4 fala de sexo, é prematura e dir-se-á promíscua até aos 30 – e só os pais saberão o pudico e secreto incidente. Contam-se romances e interioriza-se que o amor é uma coisa tão agradável que não lhe bastam todas as metáforas nem suficientes lhe são todas as líricas. O amor é como um suminho de laranja natural, apetece. A apregoada imagem de um casal idoso que dá as mãos, passeando na rua, comove mundos. Imaginam-se enredos, de uma paixão proibida, restringida, e um amor que vinga incondicional e independentemente. Não há histórias da luxúria na primeira pessoa, os contos exigem coerência que o desejo não tem. Desejo-te. Não se diz. É comprido demais, tem muitas sílabas, não fica bem em inglês e certamente se perde nas traduções para o francês. Roça o pornográfico se virmos por línguas espanholas. Cai em desuso, porque áspero. O desejo é como um limão, não se lhe pode trincar que incomoda até às vísceras. Até faz parecer que não se gosta de uma pessoa: queremo-la. E se "quero-te bem" é amoroso, "quero-te", assim, sozinho, desnudo, já parece capricho. Mas queres porquê? Egoísmo, pela certa! E ai dos Homens que se prestem a vanglórias, olhem o amor que é altruísta! Coisa bonita! Existe para lá do corpo e... morre sem ele. Porque dêem-me quantas líricas queiram, poética que o seja, não vejo amor sem desejo. Sem um "chega-me para cá essas pernas, mulher!" ou um agarrar de unhas cravadas nas costas dele, porque se o deseja por inteiro. Só havendo laranjas, não nos sai da cabeça a imagem amarela e reluzente daquele limão - Trinca-me.
E porque é o que mais nos aproxima dos animais, é o que mais nos assusta. Julgamo-nos tão racionais e, no final de contas, tão especiais... que nos esquecemos que é o desejo que nos alimenta o amor. Impropriamente, o Amor Próprio - rei de todos os outros.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Olhos em chama, coração em lágrimas.

Falo de ti como se fosses responsável pelo sol de Verão. Conto feitos teus como se pintalgar o céu de estrelas fosse um deles. E os meus olhos brilham, quando falo de ti, como se estrelas realmente fossem. Estrelas brilhando, da combustão de sonhos que implantas como se sementes. E fumo que foge do ardor que me vai no peito cada vez que me contam de ti. Ninguém com a mesma paixão que me quebra a língua em adjectivos que te engrandeçam. Que te glorifiquem. Fumo dos teus feitos, os verdadeiros, para que ninguém veja que és tu o pirómano que incendeia corações como matas áridas. Corações secos, estalando aos teus passos, que elogias como estrelas - para depois lhes pegares fogo e fugires. De longe, e em segurança, assistes ao espectáculo avermelhado como se não tivesses sido tu a chegar-lhe faúlha. Ao coração em combustão, fumo de sonhos em cinzas. O meu, quebrado em lembranças que te afamem. Histórias que engrandeçam, formiga.

Verão. Estrelas. Os teus olhos. Sonhos. Paixão. Glória. A tua língua. Coração. O meu, porque o teu nunca mo deixaste ver, sempre a salvo. Nunca desprotegido, foi bosque virgem que nunca teve lenha por onde arder.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Bom Inverno.

Apaixonava-se a cada Inverno. Havia qualquer coisa no corpo frio, a pedir outro a que se pudesse aquecer. Qualquer coisa de acolhedor num coração ecoando batimentos no escuro dos dias curtos. Coração choramingando nas noites intermináveis. O Inverno era a sua Primavera. O vento seco cortava-lhe o estômago como borboletas irrequietas e as árvores despidas lembravam-lhe a crueza de uma solidão ignorada. No Inverno, o amor estava a nu e a cru. Sem flores nem floreados, e a realidade não tinha por onde se iludir nas ruas frias desnudas. E, se amor encontrasse, amor seria.
Lembra-se perfeitamente de teres sido a sua prelecção naquele fim de ano. Havia qualquer coisa de reconfortante no teu corpo, quente como a tua voz do sul. E as tuas palavras eram cheias como frutos que o Inverno não deixava maturar. Palavras que lhe enchiam a boca de um sumo que não a autorizaste a provar dos teus lábios. Foste tu o primeiro a dizer que da tua boca beijaria tão-só a distância. Porque no Inverno, ao contrário da Primavera, a verdade fala mais alto - faz frio demais para mentir. Coração cantando na tarde em que a fizeste pensar que era Agosto. E a tarde tão curta, tão curta, tão mais curta que as habituais de Novembro, já curtas de si...
Sem flores nem floreados, a verdade é que se apaixonara por ti naquele Inverno. Aquele Novembro frio, caloroso tão-só na ponta dos teus dedos, segurando o cigarro à varanda. E no seu corpo, pedindo o teu para que se pudesse manter quente.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Não contes a ninguém.

O teu suor pinga sobre o meu rosto. Gotas como se chumbos, pingando nos meus olhos, nos meus lábios, na minha testa. E a minha testa enrugada de dor, os lábios gretados do metal que jorras como se gotas. Os olhos muito abertos, como a boca incapaz de gritar. O teu corpo balançando sobre o meu, arfando cadências certas qual lobo faminto. Esperneio em vão - as tuas mãos fortes seguram-me as coxas, que jazem ocas ao lado das tuas. Asas quebradas e o teu corpo balançando sobre o meu, a satisfação estampada na tua língua repousada ao canto da boca. E um esgar dos teus lábios que sorriem, pedindo-me que fique quieta. Ordenando-me, entre cadências da tua respiração metálica e o teu suor pesado. O meu corpo tingido pela tua ganância, a tua voracidade. Atroz o acto a que chamam de amor e que matas, segurando-me a anca com força. Ossos partidos e tu que respiras perto do meu ouvido, lambes as minhas lágrimas de uma assentada. Satisfaz-te a minha dor, vês a minha vida fugir-me pelos olhos. E os olhos muito abertos, vendo o teu corpo em oscilações de prazer doentio. Prazer doente, viva dor. Alucinante dor que me rasga a carne, jorros de sangue como linhas até ti. Há clarões que vejo no quarto, quando nem sei se dia é. Talvez seja Deus que me busque. Ou o Diabo, teu comparsa, que me fotografe. Oiço as batidas do teu coração em estereofonia, se por coração o podemos tratar. E o esgar do teu sorriso, querendo-me outra vez. As tuas mãos sabem perfeitamente onde pousar, deixaste marca funda da primeira vez. E o corpo tinge-se, em chumbo que se alastra em pisaduras esverdeadas, musgo da alma que me cobre as veias mortas.
Tenho o rosto encharcado quando por fim me soltas. A cara mergulhada em ácido que não sei se do teu suor se do meu choro. O coração que jaz oco ao lado dos meus pulmões. E os pulmões vazios de ar, de tudo, num esgar do teu sorriso satisfeito. Veste-te e tocas-me na perna - não me vais deixar.
Volto-me e vomito-te a cama. Insultas-me uma vez, duas, três. Empurras-me para fora dela, o meu corpo que obedece aos teus gestos bruscos. Ao teu corpo vil, atroz. O quarto está escuro, talvez seja noite. Lá fora, cá dentro, do lado esquerdo do peito. O peito mutilado, como o corpo que lateja e sangra. E o teu corpo no indistinto, vociferando uivos que não compreendo. Não vês? Eu nunca te fui, nunca por tua me pudeste tratar. Eu nunca fiquei. Eu nunca sequer cá estive. Se alguém te disser o contrário, não vás em pesadelos do demo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Ignorância é felicidade. Só não é para sempre.

Vivemos um amor doente, porque o meu coração te foi doentio. Hoje sei porque vagueei na tua demência: quis o meu coração à tua medida. Quis o peito a pulsar ao ritmo que trauteavas, distraído de mim. E quando me chamavas de amor quis pensar que era amor que sentias. António Lobo Antunes tem um dito de que gosto muito, sobre o amor ser uma coisa e a relação outra. Diz que quando dois estão na cama, estarão, certamente, quatro: o casal e os respectivos pares que fazem do outro. Personagens fictícias que imaginam para o que não conseguem ver do outro: o dentro, a alma. Na nossa cama não fomos nem uma coisa nem outra. Nem amor nem relação, nem dois nem quatro. Fomos vinte e sete. Via-te tão-só a ti, nu, entregue ao meu coração despido de cânticos que não os teus assobios. Imaginava-te, tão-só. E tu não precisaste fazer outra pessoa de mim. Riste-te de António Lobo Antunes, tolo. E trouxeste então outras pessoas à nossa cama. Tu deste o corpo pela alma. Foi como matares a minha. Foi como dizeres ao meu coração "Estou farto dessa música" e responderes indignado, mal o meu assustado choramingasse "Mas estavas sempre a assobia-la!", que só a trauteavas porque te ficou presa na cabeça, um dia que não sabes precisar, como um anúncio absurdo que não suportas ouvir. Se a ignorância me foi felicidade? Sim. Enquanto durou a mentira, enquanto confundi o mistério com os teus segredos sujos. Porque me fascinava o nevoeiro místico em que envolvias, o mesmo que me havia de asfixiar em ar rarefeito. Admirava as tuas meias-frases, as palavras cortadas como um vento nórdico, porque te via sábio. Pensante, filósofo, criativo. Rio-me agora quando penso que estás a anos-luz de qualquer uma dessas virtudes. Sabes o que é um ano-luz, querido? Não, não me punas o riso oco ou o sarcasmo amargo que te cuspo se me dirijo a ti. E olha que não me falta vontade de te bater à porta só para te dar com ela. Só para te responder, indignada, que és lastimável, como foi o meu coração por ti. E como o é o que dele sobrou: uma lástima. Dizer-te que me envergonho de ter achado que eram os escrúpulos que te davam esse corpanzil cheio que gostas de exibir. Pavão, tolo. Achei que eras encorpado como uma prenda. És um saco do lixo. Dos que trazem um elástico que rompe à minima tentativa de fecho. Corrompeste-te. E corrompeste-me contigo. Vejo nevoeiros em céus abertos e desconfio de mulheres em solitudes.
Se é verdade que o que não nos mata torna-nos mais fortes, saí de ti invencível, porque quase morta. O que quer dizer, em ditos meus, que o amor não me pode mais vencer. E esse direito tu não tinhas - esse eu não to dei. Por isso reivindico-o todos os dias, em doses pequeninas, para que não me assuste com a liberdade que é, finalmente, poder respirar sem as tuas mãos na minha garganta.