sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

São tempos difíceis para os sonhadores.

Os reencontros nunca são como os imaginamos na nossa cabeça.
As expectativas são umas putas e, por isso, não se lhes pode dar confiança.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

De lucidez, de velhice e de Amor.

Bato à porta duas vezes, com os nós dos dedos de uma maçaneta de ferro colada à porta de madeira. Conheço o alpendre, alguns canteiros são novos e aquelas rosas, lembro-me, já foram mais vistosas. Mais vivas. Olho a grande porta de madeira e a maçaneta a fazer de mão. Ninguém responde, bato com a minha, outras duas vezes. A impaciência contra a madeira, em nós imotos, firmes: toc toc.
- Estou a ir!
Conheço a voz como conheço o alpendre. Tem o seu quê de impaciência, como um toc toc ansioso, e adivinho-lhe o rosto que vem com a voz sôfrega. Abre-se a porta: a tia encara-me de testa enrugada:
- Tanta pressa! Já não a apanhas lúcida de qualquer maneira..
Descaio o lábio num sorriso morto. A brusquidão das suas palavras são-me familiares e, ainda assim, surpreendem-me pela dureza: fala da irmã como se de uma estranha incómoda. Esforço-me por pensar que é da idade, resquícios do Estado Novo cravado no seu timbre:
- Tanto carinho não, tia. Bom dia.
Forço um sorriso. Cumprimenta-me contrafeita, esforço-me por pensar que me deseja um bom dia em surdina. Já me encorajei tanto desde que cheguei ao alpendre e vi a maçaneta, que me serviu de mão tantos anos, e ainda nem da entrada passei..
- Está na sala. Se se assustar contigo, não te assustes tu. Sim?
Engulo o ar que julgo ser da casa toda de uma assentada. Secamente, respondo afirmativamente: Sim.
Encaminho-me para a sala. Está tudo na mesma. As paredes do mesmo bege escuro, papel amarelecido pelo tempo como um livro lido muitas vezes. Quadros desbotados, desgastados pelos risos que já ouviram, os flashes que já testemunharam das fotografias que viram emoldurar noutros cantos que não os seus. O candelabro ao centro, a tia sentada no sofá perto da janela. Falta-lhe o sorriso do costume, de quando estava tudo na mesma. Inclina a cabeça para a esquerda, perguntando-me cordialmente:
- Bom dia menina. O que a traz por cá?
Sabendo-a brincalhona, respondo alegre e ingenuamente:
- Venho ver a tia!!
Parece confusa, mas sorri finalmente. Olha em seu redor e volta a perguntar:
- E já a viu?
Um baque dentro de mim. Um soco no estômago a ver se aprendes a não seres ingénua. Escapa-me uma lágrima que, de tão salgada, me arde no rosto. Devo estar vermelha-pimento, sinto-me esquentar como o radiador da parede do fundo. Está tudo na mesma. Falta a minha tia.
- Pode-me arranjar um copo de água, menina...?
- Joana, tia, Joana.. E trate-me por tu, por favor.
O tom foi mais perto da súplica que do pedido. Por favor tia, volte, por favor, imploro-lhe. Rogo-lho.
Encaminho-me para a cozinha. Os passos estão mais perto do arrastar que do encaminhar. O português, por ser uma língua tão meiga, tem destes eufemismos. A minha tia tinha-os muitas vezes, aos eufemismos. Era muito meiga, a minha tia. Escolhia as palavras adocicada e astutamente, como se com elas me pudesse proteger do mundo. Telefonava todas as semanas. Queria saber do meu estudo, dos meus amigos, das minhas paixões: "Tu escreve, filha, escreveeee! O mundo vai querer beber das tuas palavras bonitas, porque tens um coração tão apetecível.. E nuuuunca o dês a ninguém, ouviste? Os homens não tratam bem dos corações. Só os cardiologistas e ainda assiiiiim..". Ria-me muito com a forma como prolongava as sílabas, oscilando entre o tom divertido e o trágico. A deixar que desejar. Porque deixava.. e ligava de novo na semana seguinte, a perguntar se lhe dava ouvidos. E eu dava-lhe, muito atenta, sentada na beirinha da cama de telefone na mão..
- Eu avisei-te, pequena.
Estremeço com a surpresa, de tão enebriada que estava nos meus pensamentos. Nas minhas lembranças, que agora parecem tão longe e difusas.. Como um sonho. Um sonho bom. A irmã da tia olha-me da porta da cozinha, de sobrolho levantado como uma interjeição: "Sua tonta", dizem-me aquelas sobrancelhas finas, espevitadas na minha direcção. Defendo-me:
- Eu sei. E eu já sabia. Mas quis acreditar..
- Que o Alzheimer é um mito? Somos velhas, Joana.
Di-lo como se fosse um fardo, envelhecer. A tia costumava dizer que é dom saber envelhecer e gostar de o manear como um talento muito especial. A tia e as suas palavras doces e astutas. O bom do nosso português e a boa da alma da minha tia.. A minha tia, como um sonho. E a irmã tão diferente, tão áspera e tão austera, falando-me lúcida da porta da cozinha:
- O médico diz que ainda está no ínicio. Vai ficar muito mais chéché.
Interrompo-a indignada:
- Não use essa palavra, tia. O médico faz bem em avisar, sempre nos precavemos.
Ri-se. Um riso seco, sarcástico e assustador. Gargalhadas exageradamente pausadas, exageradamente altas:
- Precaver?! Não há cura para a velhice! Muito menos para uma velhice tonta..
- Tonta?! - a minha indignação desabrochou como as rosas no alpendre - Tonta seria se julgasse a velhice uma doença. O Alzheimer é-o, sim, mas podemos medicar a tia com paciência, carinho e atençao..
Prepara-se para se rir outra vez. A sua boca abre-se escacarada, pronta para me atiçar aquele medo de riso alto e ríspido, irónico como uma piada sombria - impeço-a com um gesto brusco da mão, solta no ar como que espantando o seu ar insensível:
- Pode não compreender, nem eu lhe peço que perceba, mas pense como gostaria de ser tratada no lugar da sua irmã. Porque é sua IRMÃ. Quase lhe berro o grau de parentesco, cuspindo as sílabas de ira. Recomponho-me, encho dois copos com água da torneira e entrego-lhe um à passagem: - Isto não se pega, mas não está livre de ficar chéché também. Dissera "chéché" pausada e exageradamente, como um riso negro. Segura o copo e a tez do rosto muda-se para um branco-pavor. Parece temer que me lembre mais tarde de como tratou a irmã, caso tenha Alzheimer também. Porque se trata da sua irmã, confusa e tonta no sofá da sala. Chéché. Bebe a água de uma assentada, fica a ver o copo abanar-lhe nas mãos como se não o soubesse segurar. Treme de pânico. Esforço-me para pensar que as tremuras são também espasmos de remorsos, por ter estado a tratar a irmã como a uma imbecil que se esqueceu onde deixou as chaves. Encorajada, retorno à sala. A minha tia está de pé, olha para os lados apressadamente. Esquerda, direita, esquerda.. Fita-me de lance. Agora que reparou na minha presença estaca a olhar para mim. Esconde-se atrás do sofá, como uma criança protegendo-se com um escudo. A sua voz treme como o copo nas mãos da irmã:
- O que quer de mim? O que faz na minha casa?
Incrédula, levei um tiro na coragem. Bem atestado e certeiro, chumbo na minha boa fé. Para aprenderes.. Dou dois passos na direcção do sofá. Berra mais alto que saia, berra que não tem dinheiro, berra pelo pai que não tem e pelo marido que há muito saíra desta casa. Desta sala que de tudo vira, até este escalabroso cenário. Reaparece a irmã da cozinha, pousa-me as mãos nos ombros: - É melhor voltares pelo fim de semana. Pode ser que a apanhes melhor. Deixa comigo.
Estou eu confusa. Não pode ser, não é possível. Não há doença que lhe abane o cérebro, fazendo das memórias chocalhos. Não pode esquecer-se de mim.. Tia, os cardiologistas é que tratam do coração, lembra-se? Eu trato de si, tia, sou eu.. Deixei-me só.. Não, não deixa. Berra, chora dos gritos. Corro.
Corro segundos que me parecem anos. Eternidades. A casa como um labirinto.
Páro no alpendre, onde oiço os soluços amenarem. Os da tia, pelo menos. Os meus assombram-me o corpo, como avalanches de dor e de medo. E de raiva e de frustração, tudo junto como uma mancha que se alastra e me suja o sangue. O sangue como lama. Não há a quem apontar o dedo, mania do ser humano querer ter a quem culpar. A quem possa julgar antes de dormir, para que o faça de consciência tranquila e coração morno. O meu esquenta um choro compulsivo, reza um regresso que sabe impossivel. Como uma morte às lembranças, a tia não pode voltar. Não como era. Não como me fora. Maldito português! Porque, nestas alturas, não há eufemismos que me valham.
E, tia, se ainda me ouvir.. Obrigada por ter tentado proteger-me do mundo. Porque consegue ser duro, por vezes. Como espinhos de rosas em canteiros de amor.