sábado, 9 de outubro de 2010

Tempo.

Sei exactamente o tom com que diz mais devagar, Joana, quando estou eu ao volante. Não ganhou o meu hábito de olhar pelo espelho retrovisor para me procurar no banco de trás, só porque não estive no carro dele tantas vezes quantas são precisas para que o hábito se interiorize. Como traça, como instinto. O meu reflexo involuntário de olhar por cima do ombro direito, procurando-o, quando saímos desencontrados do metro e ele está quase sempre à minha esquerda. Não andamos de metro tantas vezes quantas são precisas para que se torne instintivo para mim olhar por cima do ombro esquerdo. Sabe da minha vida vezes que baste para convencer alguém que me conhece desde pequena. Pequena o suficiente para não pensar em conduções e validar andantes. E tanto não se esperaria de quem me conheceu nas condições em que ele me conheceu. Estava ruína e sentia-me ruína. Tinha-me obrigado a acordar e a sair da cama, como o tinha feito dias durante os meses anteriores. Obrigava-me a tomar banho, a comer, a conversar casualmente durante o jantar, a ir trabalhar e a voltar com força que bastasse para rodar a chaves de casa e empurrar a teimosa porta de casa. Obrigava-me a dormir, ainda que pouco. E no dia seguinte forçava-me a sair da cama, a entrar na banheira, a preparar que comer, como se a comida saboreasse, e a fechar a teimosa porta quando saísse. Conduzia sempre devagar, porque o tempo era a única coisa que eu tinha. Agora sei perfeitamente o tom com que me diz mais devagar, Joana, quando estou eu ao volante. Agora vejo que talvez seja preciso ser ruína enquanto não há projecto do que nos queremos construir. Aparece alguém que não nos ajuda com os tijolos porque está demasiado ocupado a carrega-los por nós. Todos os dias um peso menor. Todos os dias uma dádiva maior. E ser-se ruína torna-se uma dádiva, todos os dias. Leva-me a jantar e não me procura no espelho retrovisor porque não me teve no banco de trás tempo que baste para ganhar esse hábito. Em pouco tempo eu estava do lado direito da caixa de velocidades, do lado direito dele. E jantava com ele conversas saboreadas. Paladares adormecidos, reinventados. Doces sorrisos, salgadas confissões. Andamos de metro vezes que bastem para nos desencontrarmos nas saídas, com as multidões do Porto, e ele ri-se porque o espreitei pelo ombro direito e esteve sempre do meu lado esquerdo. Do meu lado esquerdo do peito. O peito adormecido, o peito reinventado.
Forcei-me todos os dias, durante muitos dias, a acordar-me e a sair da cama. A sentir-me na pele que visto e que lavo e de que cuido. Arruinada. E, um dia, conheci-o. E a comida ganhou vida e não precisei obrigar-me a sentir o corpo, que ruía, porque ele mo sentia por mim. Comigo. Porque ele me forçou, sem me obrigar. Carregou os tijolos e não me deixou desmoronar. Foi dádiva sem o saber - e hoje não me preocupo tantas vezes com hábitos e com quanto tempo passou. Porque passou tempo que baste. E hoje dormir só é penoso porque não o tenho comigo, seja de que lado da cama ele prefere dormir.