segunda-feira, 26 de julho de 2010

O expresso para Leiria.

Acorda com a cara ligeiramente marcada pela posição. Adormecera sob as costuras do encosto de cabeça, no banco 33 do autocarro com direcção a Leiria. Estava cansada, o Verão traz sempre insónias consigo. Talvez seja porque as noites quentes sejam tão agradáveis que custe passa-las de olhos fechados. Abre-os agora, o corpo ligeiramente marcado pelo cansaço. À sua frente, no banco 36, um rapaz que a imita. Parece seu espelho, pestanejam em sincronia. Não sabe há quanto tempo ele a olha assim, dobrado sobre si, de lado como um feto, mas não se endireita. Como um feto também ela permanece, bocejando em silêncio.
- André.
- Hum?
Som como se não dito, a boca imóvel e as sobrancelhas que se elevam. Rugas na testa, surpresas, mexem-se como lábios.
- André. O meu nome é André.
Não sabe se sonha, pestaneja com mais vigor. Ele tem os olhos muito escuros e a barba cor de chocolate, ruiva aqui e além. Um ar simpático, porque a sua face é redonda. Sempre associara formas a feitios. Esfera: boa disposição, generosidade. Rectângulo: racionalidade, ponderação. Orgulhava-se de ter um rosto oval, o dito meio termo entre um e outro.
- E tu deves ser a Mafalda.
Rugas na testa, admiradas, falam como se bocas.
- Ouvi num telefonema teu, estavas chateada por terem dito que a culpa era sempre da Mafalda, deduzi que fosses tu..
Não se dera conta de o ver subir para o autocarro, o rapaz do banco 36. No Porto não fora por certo, estavam consigo apenas mulheres. E agora que admitira ouvir-lhe as conversas pensava que talvez se tivesse enganado nas associações - esfera: dúvida, bisbilhotice.
- E eu não serei capaz de me revoltar com problemas alheios? Só me chateia se disserem que a culpa é minha?
Fala baixo mas com firmeza. Estão em simetria, um em relação ao outro, separa-os o corredor entre os passageiros do expresso com sentido a Leiria.
- Não, podia bem ser outra pessoa, Mafalda.
Voltar a chamar pelo nome dela, certo de que o é, soa um pouco a impertinência. Ainda não sabe se isso é uma coisa boa. O sabichão, o perspicaz. Ou o teimoso, o metediço. Decide dar-lhe o benefício da dúvida, o Verão traz sempre consigo segundas oportunidades. Talvez seja porque os dias longos sejam tão únicos que custe deixa-los passar sem elas.
- Olá André.
Baixa a sua guarda, aproxima-se do rosto em forma de bolacha com geleia, de barba ruiva aqui e além, sen abandonar o seu encosto do banco 33. Põe a mão esquerda sob a cara para evitar futuras marcas de costuras.
- Eu normalmente não falo com estranhos.
André sorri e responde-lhe propositadamente mais baixo, como se em troça.
- Eu não sou uma pessoa normal.
Mafalda sorri - é o tipo de frase que ela diria. Talvez a sua impertinência seja uma coisa boa, afinal. A posição dele, igual à sua, faz parecer-lhe ver-se ao espelho. Mas com menos cabelo. E barba, chocolate com geleia.
O televisor sobre as suas cabeças anuncia que fazem ligação em Coimbra, onde chegavam agora. O autocarro fica subitadamente escuro, Mafalda vê paredes cinzentas pela janela atrás de André. É uma garagem, e o seu destino. André parece não prestar atenção, talvez não vá sair nesta. Mafalda avisa:
- Eu saio nesta.
Não se endireita nem apanha a carteira caída aos seus pés. Espera resposta, espanta-se porque ansiosa. É apenas um estranho com um ar simpático e impertinente, diz de si para si.
- Eu podia sair aqui.
Pausa. Mafalda não compreende.
- Podias? Mas não vais?
- Não.
- Porquê?
Ah, apercebe-se que foi ela metediça, como uma pessoa capaz de escutar conversas alheias. Finge-se despreocupada enquanto reúne os seus pertences.
- Porque seria pouco normal. Até para um anormal como eu.
Pisca o olho esquerdo com naturalidade. Mafalda sempre achara o gesto vulgar, mas agora vira a excepção: um piscar de olhos carinhoso, como se cúmplice.
- Eu poderia ficar. Mas isso seria demasiado irresponsável, até para uma cabeça de vento como eu.
Porque lhe dissera que era irresponsável? Acabara de se amitir cabeça de vento a um perfeito estranho. Um estranho que lhe escutara os telefonemas como uma escuta e a observara durante o sono como um espia.
- Está bem.
André continuava na posição de feto, aninhado no banco 36. Tem a mão esquerda sob a cara. O rosto redondo, os olhos muito escuros como as paredes da garagem.
- Está bem, repete Mafalda. Levanta-se. Encaminha-se até à porta agora aberta do expresso com sentido a Leiria.
Do banco 36 ergue-se uma cabeça. Barba ruiva aqui e além:
- Eu podia, Mafalda.
Não percebe. Ainda não sabe se este rapaz enigma, como uma charada, é coisa boa:
- Sair nesta?
- Não. Sorri: mudar a tua vida, diz vagarosa e lentamente.
Mafalda sorri. O seu rosto oval cora de um vermelho tímido:
- Anormal.
Ele mexe os lábios, mas, propositadamente, nenhum som sai da sua boca. Lê-lhe os movimentos, rugas faladoras na testa: Cabeça de vento.
Mafalda pisca-lhe o olho, mas não no sentido vulgar. Cúmplice, sai do autocarro e deixa a garagem sem olhar para trás. Parte o autocarro com direcção a Leiria. Vai apinhado, vazio apenas aqui, no banco 33, e além.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Universos paralelos.

Tinha-lhe prometido o mundo. E o mundo lhe dera, de facto.











Depois?
Depois deixou-a sozinha com ele, que fizesse bom proveito. Ao que parece tinha outras galáxias para amar..

sábado, 10 de julho de 2010

Amor pintado de fresco.

Quando acorda já ele está a pé. A brusca claridade do dia não parece atingir-lhe os sonolentos olhos escuros, que pestanejam com vigor. Espreguiça-se com delicadeza e diz Bom dia com um sorriso terno. Não se assusta com a sua própria nudez, ou com a dele - corpos crus como se recém-vivos. Não vai puxar os lençóis brancos para tentar cobrir os seus seios malte, o ventre a nu - está confortável como se vestida. Ele atenta nos pequenos pormenores - o cabelo dela, como se molas de sofá, chega-lhe até aos ombros: mas nem todo. Anilhas e roscas mais ousadas escorrem-lhe pelas costas altas e parece tê-las pintado de fresco. Um brilho resplandece dos seus caracóis negros como se um letreiro ofuscante: «Não tocar, pintado de fresco». E de novo aquela vontade de lá mergulhar os seus dedos, como uma criança ávida da aventura proibida que seria esconder a tinta ainda húmida dos seus polegares, a tinta negra como se petróleo..
- Já comeste alguma coisa?
Ela está agora de pé, diante de si. É um pouco mais baixa que ele, ou do que parecia ser a sua altura quando deitada. Repete a pergunta - no que se esperaria impaciência, ouve-se afecto.
- Ainda não...
Responde sem muito entusiasmo, está confuso. Caricata esta súbita preocupação quase maternal daquela mulher que por uma noite lhe fora tudo menos sua mãe. Ela caminha nua e descalça para o quarto de banho. Não fecha a porta, não se ouve água a correr nem tampos a levantar ou gavetas a correr. Quando regressar trará o roupão dele vestido. Fica intrigado com o à-vontade dela com o seu próprio corpo, com as coisas alheias - a cama e a claridade abruptas, o roupão dele..
- Vou preparar-te qualquer coisa.
O seu tom é agora divertido, como se estivessem a brincar ao faz-de-conta. Faz-de-conta que somos um casal.
Interrompe-a:
- Deixa estar, eu não tenho muita fome e...
É a vez dela:
- Eu insisto.
Aproxima-se do rosto dele, apoia-se em pontas dos pés para lhe chegar aos lábios, porque é mais baixa do que aparentaria ser quando deitada. Beija-o com ternura e volta para a cozinha sem hesitação - faz-de-conta que conhece os cantos à casa. Não pergunta onde estão as coisas, não se incomoda que ele não se tenha ainda vestido. Faz panquecas com chocolate, como se soubesse que são as suas preferidas. Está confuso, mas agradece beijando-lhe a testa. Molas de sofá escuras que salpicam o seu rosto como gotejos de óleo ainda bruto. Cheira a lavanda, quando todos os corpos a que se habituara sabiam a jasmin. Quando todas as mulheres que conhecera fugiam da luz do dia como da ousadia de vestir o robe dele como seu. Está confuso, saboreia o pequeno-almoço. Faz-de-conta que não são as suas preferidas - as fascinantes panquecas de chocolate e a deliciosa mulher que as fez.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ele.

Conheceu-a numa tímida manhã de Verão. O parque da cidade do Porto estava povoado de crianças com bonés amarelos, bonés cor-de-rosa, t-shirts com logos de mascotes. Corriam atrás de uma bola, ou corriam simplesmente, e riam-se muito. Havia meia dúzia de ciclistas, lembra-se de ter pensado que podia antes ter ido de bicicleta também, correr sozinho pode tornar-se um hábito solitário, aborrecido que baste. Mas carpir mágoas nunca fora consigo, portanto não se demorou muito no assunto. Continuou a correr - um hábito que ganhara desde que se mudara para Portugal. E então viu-a. Mesmo depois daquela curva poeirenta perto do lago, entre uma árvore de raizes promissoras e outra menos proeminente. O cabelo muito preso no cocuruto da cabeça dava ideia de ser mais pequeno do que realmente era, mas realçava-lhe os olhos arredondados como avelãs. A boca esguia esboçava um sorriso, o olhar dirigido para a palma da mão aberta, no que daria a entender ser um telemóvel. Pela mão livre trazia uma trela vermelha que terminava nuns arbustos avultos, no que daria a entender ser um cachorro arisco. Abrandou a corrida, passos largos no parque na direcção dela. Trazia vestido uma t-shirt de um azul turquesa e uns calções amarelos, a lembrar uma mascote que vira na t-shirt de um dos miúdos no parque. Sorria com a imagem, recordava agora que a mascote se tratava de um castor de olhos arregalados.
Já a poucos metros de distância, o cachorro sai dos arbustos e brinca nas suas pernas altas - é um dálmata bebé. A trela vermelha está agora enrolada no seu braço direito e na sua perna esquerda, como um laivo de sangue, mas ela parece não reparar.
- Ele deve ser muito bonito.
Ela soergue os olhos do telemóvel, no qual escrevia mecanicamente só com o polegar, e a surpresa do comentário eleva-lhe um pouco as sobrancelhas. Assim de olhos espantados, lembra o castor da mascote e ele não consegue evitar sorrir:
- O rapaz a quem escreves mensagens, deve ser muito bonito.
Continua confusa, agora semi-cerrou um pouco os olhos, já de si pequenos. Continua bonita.
- Desculpe?
A sua voz é mais profunda do que a sua frágil figura aparentaria. Um pouco rouca, mas quente como a tarde de Verão que se aproxima.
- Só assim se explica como não repara que tem o seu belo pequeno quase esganado.
Aponta para o pequeno dálmata, agora com as patas presas na trela e aspecto ofegante. Instintivamente, ela solta uma exclamação carinhosa e debruça-se sobre o animal. Pode ver-lhe o pescoço, cru como um pêssego careca. Quando o cachorro está de novo a salvo, levanta-se com rapidez e elegância. Encara-o um tanto ou quanto envergonhada.
- Ele nunca pára quieto e eu.. estava distraída. Obrigada.
Sorri-lhe. Não como quando encarara o telemóvel, com aquele brilho de entusiasmo, mas ainda assim um sorriso bonito.
- De nada...
Prolonga o som da vogal entredentes, na expectativa que lhe diga o seu nome.
- Rufus.
Pega no animal para o apresentar, segura-lhe uma das patas dianteiras em jeito de aceno. Ele não consegue evitar rir com a brincadeira - ao que parece são os dois muito ariscos.
- Bonito nome, Rufus. E não desistas!, vais ver que um dia a tua dona esquece-se do telemóvel em casa.
Dera ênfase ao "não desistas" e faz agora uma festa na cabeça do cachorro, que desaparece de vista de tão pequeno. Ela guardara o telemóvel no bolso, estende-lhe o braço.
- Maria. Maria João. Mas toda a gente me trata por João.
- Estranhos inclusive?
Pausa. Maria encolhe os ombros:
- Só os bem parecidos.
Aperta-lhe a mão com delicadeza, os dedos são finos e a sua pele é morna como água.
- Raúl.
Ter dito apenas o primeiro nome deixou-a espectante, pareceu intrigada.
- Um bom dia então, Raúl. Vamos Rufus!
Dá um leve puxão na trela e o cachorro espevita. Caminham lado a lado, afastam-se em direcção à multidão de miúdos. Bonés amarelos, bonés cor-de-rosa, t-shirts com castores de olhos esbugalhados. Azul-céu e amarelo-lima, pintas pretas num pêlo branco. Imagens soltas que lhe invadem a cabeça, enquanto agradece não ter trazido a bicicleta.
- Bom dia Maria, diz já falando sozinho. Não a tratará por João como qualquer um, porque qualquer um não quer ser. Fazer questão deste pormenor deixa-o espectante, parece intrigado consigo mesmo. Contava vir correr para o parque numa tímida manhã de Verão e, então, conhecera-a.