sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

São tempos difíceis para os sonhadores.

Os reencontros nunca são como os imaginamos na nossa cabeça.
As expectativas são umas putas e, por isso, não se lhes pode dar confiança.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

De lucidez, de velhice e de Amor.

Bato à porta duas vezes, com os nós dos dedos de uma maçaneta de ferro colada à porta de madeira. Conheço o alpendre, alguns canteiros são novos e aquelas rosas, lembro-me, já foram mais vistosas. Mais vivas. Olho a grande porta de madeira e a maçaneta a fazer de mão. Ninguém responde, bato com a minha, outras duas vezes. A impaciência contra a madeira, em nós imotos, firmes: toc toc.
- Estou a ir!
Conheço a voz como conheço o alpendre. Tem o seu quê de impaciência, como um toc toc ansioso, e adivinho-lhe o rosto que vem com a voz sôfrega. Abre-se a porta: a tia encara-me de testa enrugada:
- Tanta pressa! Já não a apanhas lúcida de qualquer maneira..
Descaio o lábio num sorriso morto. A brusquidão das suas palavras são-me familiares e, ainda assim, surpreendem-me pela dureza: fala da irmã como se de uma estranha incómoda. Esforço-me por pensar que é da idade, resquícios do Estado Novo cravado no seu timbre:
- Tanto carinho não, tia. Bom dia.
Forço um sorriso. Cumprimenta-me contrafeita, esforço-me por pensar que me deseja um bom dia em surdina. Já me encorajei tanto desde que cheguei ao alpendre e vi a maçaneta, que me serviu de mão tantos anos, e ainda nem da entrada passei..
- Está na sala. Se se assustar contigo, não te assustes tu. Sim?
Engulo o ar que julgo ser da casa toda de uma assentada. Secamente, respondo afirmativamente: Sim.
Encaminho-me para a sala. Está tudo na mesma. As paredes do mesmo bege escuro, papel amarelecido pelo tempo como um livro lido muitas vezes. Quadros desbotados, desgastados pelos risos que já ouviram, os flashes que já testemunharam das fotografias que viram emoldurar noutros cantos que não os seus. O candelabro ao centro, a tia sentada no sofá perto da janela. Falta-lhe o sorriso do costume, de quando estava tudo na mesma. Inclina a cabeça para a esquerda, perguntando-me cordialmente:
- Bom dia menina. O que a traz por cá?
Sabendo-a brincalhona, respondo alegre e ingenuamente:
- Venho ver a tia!!
Parece confusa, mas sorri finalmente. Olha em seu redor e volta a perguntar:
- E já a viu?
Um baque dentro de mim. Um soco no estômago a ver se aprendes a não seres ingénua. Escapa-me uma lágrima que, de tão salgada, me arde no rosto. Devo estar vermelha-pimento, sinto-me esquentar como o radiador da parede do fundo. Está tudo na mesma. Falta a minha tia.
- Pode-me arranjar um copo de água, menina...?
- Joana, tia, Joana.. E trate-me por tu, por favor.
O tom foi mais perto da súplica que do pedido. Por favor tia, volte, por favor, imploro-lhe. Rogo-lho.
Encaminho-me para a cozinha. Os passos estão mais perto do arrastar que do encaminhar. O português, por ser uma língua tão meiga, tem destes eufemismos. A minha tia tinha-os muitas vezes, aos eufemismos. Era muito meiga, a minha tia. Escolhia as palavras adocicada e astutamente, como se com elas me pudesse proteger do mundo. Telefonava todas as semanas. Queria saber do meu estudo, dos meus amigos, das minhas paixões: "Tu escreve, filha, escreveeee! O mundo vai querer beber das tuas palavras bonitas, porque tens um coração tão apetecível.. E nuuuunca o dês a ninguém, ouviste? Os homens não tratam bem dos corações. Só os cardiologistas e ainda assiiiiim..". Ria-me muito com a forma como prolongava as sílabas, oscilando entre o tom divertido e o trágico. A deixar que desejar. Porque deixava.. e ligava de novo na semana seguinte, a perguntar se lhe dava ouvidos. E eu dava-lhe, muito atenta, sentada na beirinha da cama de telefone na mão..
- Eu avisei-te, pequena.
Estremeço com a surpresa, de tão enebriada que estava nos meus pensamentos. Nas minhas lembranças, que agora parecem tão longe e difusas.. Como um sonho. Um sonho bom. A irmã da tia olha-me da porta da cozinha, de sobrolho levantado como uma interjeição: "Sua tonta", dizem-me aquelas sobrancelhas finas, espevitadas na minha direcção. Defendo-me:
- Eu sei. E eu já sabia. Mas quis acreditar..
- Que o Alzheimer é um mito? Somos velhas, Joana.
Di-lo como se fosse um fardo, envelhecer. A tia costumava dizer que é dom saber envelhecer e gostar de o manear como um talento muito especial. A tia e as suas palavras doces e astutas. O bom do nosso português e a boa da alma da minha tia.. A minha tia, como um sonho. E a irmã tão diferente, tão áspera e tão austera, falando-me lúcida da porta da cozinha:
- O médico diz que ainda está no ínicio. Vai ficar muito mais chéché.
Interrompo-a indignada:
- Não use essa palavra, tia. O médico faz bem em avisar, sempre nos precavemos.
Ri-se. Um riso seco, sarcástico e assustador. Gargalhadas exageradamente pausadas, exageradamente altas:
- Precaver?! Não há cura para a velhice! Muito menos para uma velhice tonta..
- Tonta?! - a minha indignação desabrochou como as rosas no alpendre - Tonta seria se julgasse a velhice uma doença. O Alzheimer é-o, sim, mas podemos medicar a tia com paciência, carinho e atençao..
Prepara-se para se rir outra vez. A sua boca abre-se escacarada, pronta para me atiçar aquele medo de riso alto e ríspido, irónico como uma piada sombria - impeço-a com um gesto brusco da mão, solta no ar como que espantando o seu ar insensível:
- Pode não compreender, nem eu lhe peço que perceba, mas pense como gostaria de ser tratada no lugar da sua irmã. Porque é sua IRMÃ. Quase lhe berro o grau de parentesco, cuspindo as sílabas de ira. Recomponho-me, encho dois copos com água da torneira e entrego-lhe um à passagem: - Isto não se pega, mas não está livre de ficar chéché também. Dissera "chéché" pausada e exageradamente, como um riso negro. Segura o copo e a tez do rosto muda-se para um branco-pavor. Parece temer que me lembre mais tarde de como tratou a irmã, caso tenha Alzheimer também. Porque se trata da sua irmã, confusa e tonta no sofá da sala. Chéché. Bebe a água de uma assentada, fica a ver o copo abanar-lhe nas mãos como se não o soubesse segurar. Treme de pânico. Esforço-me para pensar que as tremuras são também espasmos de remorsos, por ter estado a tratar a irmã como a uma imbecil que se esqueceu onde deixou as chaves. Encorajada, retorno à sala. A minha tia está de pé, olha para os lados apressadamente. Esquerda, direita, esquerda.. Fita-me de lance. Agora que reparou na minha presença estaca a olhar para mim. Esconde-se atrás do sofá, como uma criança protegendo-se com um escudo. A sua voz treme como o copo nas mãos da irmã:
- O que quer de mim? O que faz na minha casa?
Incrédula, levei um tiro na coragem. Bem atestado e certeiro, chumbo na minha boa fé. Para aprenderes.. Dou dois passos na direcção do sofá. Berra mais alto que saia, berra que não tem dinheiro, berra pelo pai que não tem e pelo marido que há muito saíra desta casa. Desta sala que de tudo vira, até este escalabroso cenário. Reaparece a irmã da cozinha, pousa-me as mãos nos ombros: - É melhor voltares pelo fim de semana. Pode ser que a apanhes melhor. Deixa comigo.
Estou eu confusa. Não pode ser, não é possível. Não há doença que lhe abane o cérebro, fazendo das memórias chocalhos. Não pode esquecer-se de mim.. Tia, os cardiologistas é que tratam do coração, lembra-se? Eu trato de si, tia, sou eu.. Deixei-me só.. Não, não deixa. Berra, chora dos gritos. Corro.
Corro segundos que me parecem anos. Eternidades. A casa como um labirinto.
Páro no alpendre, onde oiço os soluços amenarem. Os da tia, pelo menos. Os meus assombram-me o corpo, como avalanches de dor e de medo. E de raiva e de frustração, tudo junto como uma mancha que se alastra e me suja o sangue. O sangue como lama. Não há a quem apontar o dedo, mania do ser humano querer ter a quem culpar. A quem possa julgar antes de dormir, para que o faça de consciência tranquila e coração morno. O meu esquenta um choro compulsivo, reza um regresso que sabe impossivel. Como uma morte às lembranças, a tia não pode voltar. Não como era. Não como me fora. Maldito português! Porque, nestas alturas, não há eufemismos que me valham.
E, tia, se ainda me ouvir.. Obrigada por ter tentado proteger-me do mundo. Porque consegue ser duro, por vezes. Como espinhos de rosas em canteiros de amor.

sábado, 13 de novembro de 2010

Certa como a paisagem.

Se o vento aos teus ouvidos for sussurrar, que não mais preciso de ti, meu amor, tu não acredites no traiçoeiro vento, que o maldito nada mais consigo carrega senão fantasmas em assobios.







O meu amor por ti é uma montanha. E ainda está por contar a história de uma montanha que, por crer no vento, ruiu.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Bon Iver.

O Inverno foi o pão nosso de cada dia. As horas contigo escorriam gélidas como agonizantes ventos nórdicos. Nunca, ou muito raramente, os teus braços aqueceram os meus por vontade própria..
(Livre arbítrio, nunca o conheceste)
.. Eu puxava-os, como a uma manta. Eu puxava-te, como a um barco...
(Naufragamos meu amor, vê)
.. e tu resistias como uma maré, tempestade de mim. E eu a tremer de frio, eu estática por dentro. E as convulsões das tremuras que não vias em contraste mórbido com a apatia do peito morto. O coração em músculo lato. Tecido que uivou até à rouquidão e cede como cordas esticadas a um barco bravo..
(Carcaça, carcaça).

Esperei-te perto do farol. As estações passavam sem que as distinguisse. Afinal, o Inverno foi o pão nosso de cada dia. As horas sem ti, lânguidas, como água nos pulmões. A voz rouca, o uivo abatido como um lobo solitário e doente. Doente até aos ossos, enxaguado pela água fria. A nórdica água gélida. E o amor? O amor derrotado.
(O meu amor carcaça, enterrado na areia como se por fiel âncora.)

Em pulsos.

Perguntei ao sangue onde estava a minha inspiração. E o sangue levou-me até ti.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Fugi da gaiola.

Quero ser cortejada. Não como um pássaro, mas como uma mulher.

sábado, 9 de outubro de 2010

Tempo.

Sei exactamente o tom com que diz mais devagar, Joana, quando estou eu ao volante. Não ganhou o meu hábito de olhar pelo espelho retrovisor para me procurar no banco de trás, só porque não estive no carro dele tantas vezes quantas são precisas para que o hábito se interiorize. Como traça, como instinto. O meu reflexo involuntário de olhar por cima do ombro direito, procurando-o, quando saímos desencontrados do metro e ele está quase sempre à minha esquerda. Não andamos de metro tantas vezes quantas são precisas para que se torne instintivo para mim olhar por cima do ombro esquerdo. Sabe da minha vida vezes que baste para convencer alguém que me conhece desde pequena. Pequena o suficiente para não pensar em conduções e validar andantes. E tanto não se esperaria de quem me conheceu nas condições em que ele me conheceu. Estava ruína e sentia-me ruína. Tinha-me obrigado a acordar e a sair da cama, como o tinha feito dias durante os meses anteriores. Obrigava-me a tomar banho, a comer, a conversar casualmente durante o jantar, a ir trabalhar e a voltar com força que bastasse para rodar a chaves de casa e empurrar a teimosa porta de casa. Obrigava-me a dormir, ainda que pouco. E no dia seguinte forçava-me a sair da cama, a entrar na banheira, a preparar que comer, como se a comida saboreasse, e a fechar a teimosa porta quando saísse. Conduzia sempre devagar, porque o tempo era a única coisa que eu tinha. Agora sei perfeitamente o tom com que me diz mais devagar, Joana, quando estou eu ao volante. Agora vejo que talvez seja preciso ser ruína enquanto não há projecto do que nos queremos construir. Aparece alguém que não nos ajuda com os tijolos porque está demasiado ocupado a carrega-los por nós. Todos os dias um peso menor. Todos os dias uma dádiva maior. E ser-se ruína torna-se uma dádiva, todos os dias. Leva-me a jantar e não me procura no espelho retrovisor porque não me teve no banco de trás tempo que baste para ganhar esse hábito. Em pouco tempo eu estava do lado direito da caixa de velocidades, do lado direito dele. E jantava com ele conversas saboreadas. Paladares adormecidos, reinventados. Doces sorrisos, salgadas confissões. Andamos de metro vezes que bastem para nos desencontrarmos nas saídas, com as multidões do Porto, e ele ri-se porque o espreitei pelo ombro direito e esteve sempre do meu lado esquerdo. Do meu lado esquerdo do peito. O peito adormecido, o peito reinventado.
Forcei-me todos os dias, durante muitos dias, a acordar-me e a sair da cama. A sentir-me na pele que visto e que lavo e de que cuido. Arruinada. E, um dia, conheci-o. E a comida ganhou vida e não precisei obrigar-me a sentir o corpo, que ruía, porque ele mo sentia por mim. Comigo. Porque ele me forçou, sem me obrigar. Carregou os tijolos e não me deixou desmoronar. Foi dádiva sem o saber - e hoje não me preocupo tantas vezes com hábitos e com quanto tempo passou. Porque passou tempo que baste. E hoje dormir só é penoso porque não o tenho comigo, seja de que lado da cama ele prefere dormir.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O que é, Joana?

São as pequenas coisas. A forma como teima em pegar-me ao colo ou as descuidadas vezes que o apanho a olhar-me quando estou a fazer qualquer coisa: a dançar, a pedir uma bebida ou a estacionar o carro dele minuciosamente. São as pequenas coisas - prefere o meu biquíni azul, o das bolinhas brancas, e faz questão de me segurar a porta enquanto espera que entre primeiro. Porque eu entro sempre em primeiro. Trago comigo um isqueiro e não fumo, porque uma vez o distraí da condução com a faísca de um e ficou-me com ele. Diz que queria uma coisa minha, mas mal ele sabia.. Desde então me lembro dele, nas descuidadas vezes que acendo o isqueiro que sempre trago - a faísca e o sorriso dele. São as pequenas vezes em que se chateia comigo e deliberadamente pronuncia mal o meu nome, demovendo-me: Oh Choana. São todas as vezes que, demovida, sorrio quando ele faz isso: Oh Chico.
São as pequenas coisas. O achar que é capaz de treinar o cão, que tem como a um filho, para me ladrar de cada vez que perguntar "a Joana não é bonita, Che?". São as pequenas coisas como saber que tem um labrador, chamado Che, como a um filho. E outro, o Bala, que é mais do tipo enteado. E é falar destas pequenas coisas, horas a fio. E passa-las com ele, também.
Sim, se me perguntarem o que é que mais gosto no Francisco é o que respondo: são as pequenas-capazes-de-me-abrir-o-coração coisas.

sábado, 18 de setembro de 2010

Quando estou contigo, não há clichês que me valham.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O expresso para Leiria.

Acorda com a cara ligeiramente marcada pela posição. Adormecera sob as costuras do encosto de cabeça, no banco 33 do autocarro com direcção a Leiria. Estava cansada, o Verão traz sempre insónias consigo. Talvez seja porque as noites quentes sejam tão agradáveis que custe passa-las de olhos fechados. Abre-os agora, o corpo ligeiramente marcado pelo cansaço. À sua frente, no banco 36, um rapaz que a imita. Parece seu espelho, pestanejam em sincronia. Não sabe há quanto tempo ele a olha assim, dobrado sobre si, de lado como um feto, mas não se endireita. Como um feto também ela permanece, bocejando em silêncio.
- André.
- Hum?
Som como se não dito, a boca imóvel e as sobrancelhas que se elevam. Rugas na testa, surpresas, mexem-se como lábios.
- André. O meu nome é André.
Não sabe se sonha, pestaneja com mais vigor. Ele tem os olhos muito escuros e a barba cor de chocolate, ruiva aqui e além. Um ar simpático, porque a sua face é redonda. Sempre associara formas a feitios. Esfera: boa disposição, generosidade. Rectângulo: racionalidade, ponderação. Orgulhava-se de ter um rosto oval, o dito meio termo entre um e outro.
- E tu deves ser a Mafalda.
Rugas na testa, admiradas, falam como se bocas.
- Ouvi num telefonema teu, estavas chateada por terem dito que a culpa era sempre da Mafalda, deduzi que fosses tu..
Não se dera conta de o ver subir para o autocarro, o rapaz do banco 36. No Porto não fora por certo, estavam consigo apenas mulheres. E agora que admitira ouvir-lhe as conversas pensava que talvez se tivesse enganado nas associações - esfera: dúvida, bisbilhotice.
- E eu não serei capaz de me revoltar com problemas alheios? Só me chateia se disserem que a culpa é minha?
Fala baixo mas com firmeza. Estão em simetria, um em relação ao outro, separa-os o corredor entre os passageiros do expresso com sentido a Leiria.
- Não, podia bem ser outra pessoa, Mafalda.
Voltar a chamar pelo nome dela, certo de que o é, soa um pouco a impertinência. Ainda não sabe se isso é uma coisa boa. O sabichão, o perspicaz. Ou o teimoso, o metediço. Decide dar-lhe o benefício da dúvida, o Verão traz sempre consigo segundas oportunidades. Talvez seja porque os dias longos sejam tão únicos que custe deixa-los passar sem elas.
- Olá André.
Baixa a sua guarda, aproxima-se do rosto em forma de bolacha com geleia, de barba ruiva aqui e além, sen abandonar o seu encosto do banco 33. Põe a mão esquerda sob a cara para evitar futuras marcas de costuras.
- Eu normalmente não falo com estranhos.
André sorri e responde-lhe propositadamente mais baixo, como se em troça.
- Eu não sou uma pessoa normal.
Mafalda sorri - é o tipo de frase que ela diria. Talvez a sua impertinência seja uma coisa boa, afinal. A posição dele, igual à sua, faz parecer-lhe ver-se ao espelho. Mas com menos cabelo. E barba, chocolate com geleia.
O televisor sobre as suas cabeças anuncia que fazem ligação em Coimbra, onde chegavam agora. O autocarro fica subitadamente escuro, Mafalda vê paredes cinzentas pela janela atrás de André. É uma garagem, e o seu destino. André parece não prestar atenção, talvez não vá sair nesta. Mafalda avisa:
- Eu saio nesta.
Não se endireita nem apanha a carteira caída aos seus pés. Espera resposta, espanta-se porque ansiosa. É apenas um estranho com um ar simpático e impertinente, diz de si para si.
- Eu podia sair aqui.
Pausa. Mafalda não compreende.
- Podias? Mas não vais?
- Não.
- Porquê?
Ah, apercebe-se que foi ela metediça, como uma pessoa capaz de escutar conversas alheias. Finge-se despreocupada enquanto reúne os seus pertences.
- Porque seria pouco normal. Até para um anormal como eu.
Pisca o olho esquerdo com naturalidade. Mafalda sempre achara o gesto vulgar, mas agora vira a excepção: um piscar de olhos carinhoso, como se cúmplice.
- Eu poderia ficar. Mas isso seria demasiado irresponsável, até para uma cabeça de vento como eu.
Porque lhe dissera que era irresponsável? Acabara de se amitir cabeça de vento a um perfeito estranho. Um estranho que lhe escutara os telefonemas como uma escuta e a observara durante o sono como um espia.
- Está bem.
André continuava na posição de feto, aninhado no banco 36. Tem a mão esquerda sob a cara. O rosto redondo, os olhos muito escuros como as paredes da garagem.
- Está bem, repete Mafalda. Levanta-se. Encaminha-se até à porta agora aberta do expresso com sentido a Leiria.
Do banco 36 ergue-se uma cabeça. Barba ruiva aqui e além:
- Eu podia, Mafalda.
Não percebe. Ainda não sabe se este rapaz enigma, como uma charada, é coisa boa:
- Sair nesta?
- Não. Sorri: mudar a tua vida, diz vagarosa e lentamente.
Mafalda sorri. O seu rosto oval cora de um vermelho tímido:
- Anormal.
Ele mexe os lábios, mas, propositadamente, nenhum som sai da sua boca. Lê-lhe os movimentos, rugas faladoras na testa: Cabeça de vento.
Mafalda pisca-lhe o olho, mas não no sentido vulgar. Cúmplice, sai do autocarro e deixa a garagem sem olhar para trás. Parte o autocarro com direcção a Leiria. Vai apinhado, vazio apenas aqui, no banco 33, e além.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Universos paralelos.

Tinha-lhe prometido o mundo. E o mundo lhe dera, de facto.











Depois?
Depois deixou-a sozinha com ele, que fizesse bom proveito. Ao que parece tinha outras galáxias para amar..

sábado, 10 de julho de 2010

Amor pintado de fresco.

Quando acorda já ele está a pé. A brusca claridade do dia não parece atingir-lhe os sonolentos olhos escuros, que pestanejam com vigor. Espreguiça-se com delicadeza e diz Bom dia com um sorriso terno. Não se assusta com a sua própria nudez, ou com a dele - corpos crus como se recém-vivos. Não vai puxar os lençóis brancos para tentar cobrir os seus seios malte, o ventre a nu - está confortável como se vestida. Ele atenta nos pequenos pormenores - o cabelo dela, como se molas de sofá, chega-lhe até aos ombros: mas nem todo. Anilhas e roscas mais ousadas escorrem-lhe pelas costas altas e parece tê-las pintado de fresco. Um brilho resplandece dos seus caracóis negros como se um letreiro ofuscante: «Não tocar, pintado de fresco». E de novo aquela vontade de lá mergulhar os seus dedos, como uma criança ávida da aventura proibida que seria esconder a tinta ainda húmida dos seus polegares, a tinta negra como se petróleo..
- Já comeste alguma coisa?
Ela está agora de pé, diante de si. É um pouco mais baixa que ele, ou do que parecia ser a sua altura quando deitada. Repete a pergunta - no que se esperaria impaciência, ouve-se afecto.
- Ainda não...
Responde sem muito entusiasmo, está confuso. Caricata esta súbita preocupação quase maternal daquela mulher que por uma noite lhe fora tudo menos sua mãe. Ela caminha nua e descalça para o quarto de banho. Não fecha a porta, não se ouve água a correr nem tampos a levantar ou gavetas a correr. Quando regressar trará o roupão dele vestido. Fica intrigado com o à-vontade dela com o seu próprio corpo, com as coisas alheias - a cama e a claridade abruptas, o roupão dele..
- Vou preparar-te qualquer coisa.
O seu tom é agora divertido, como se estivessem a brincar ao faz-de-conta. Faz-de-conta que somos um casal.
Interrompe-a:
- Deixa estar, eu não tenho muita fome e...
É a vez dela:
- Eu insisto.
Aproxima-se do rosto dele, apoia-se em pontas dos pés para lhe chegar aos lábios, porque é mais baixa do que aparentaria ser quando deitada. Beija-o com ternura e volta para a cozinha sem hesitação - faz-de-conta que conhece os cantos à casa. Não pergunta onde estão as coisas, não se incomoda que ele não se tenha ainda vestido. Faz panquecas com chocolate, como se soubesse que são as suas preferidas. Está confuso, mas agradece beijando-lhe a testa. Molas de sofá escuras que salpicam o seu rosto como gotejos de óleo ainda bruto. Cheira a lavanda, quando todos os corpos a que se habituara sabiam a jasmin. Quando todas as mulheres que conhecera fugiam da luz do dia como da ousadia de vestir o robe dele como seu. Está confuso, saboreia o pequeno-almoço. Faz-de-conta que não são as suas preferidas - as fascinantes panquecas de chocolate e a deliciosa mulher que as fez.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ele.

Conheceu-a numa tímida manhã de Verão. O parque da cidade do Porto estava povoado de crianças com bonés amarelos, bonés cor-de-rosa, t-shirts com logos de mascotes. Corriam atrás de uma bola, ou corriam simplesmente, e riam-se muito. Havia meia dúzia de ciclistas, lembra-se de ter pensado que podia antes ter ido de bicicleta também, correr sozinho pode tornar-se um hábito solitário, aborrecido que baste. Mas carpir mágoas nunca fora consigo, portanto não se demorou muito no assunto. Continuou a correr - um hábito que ganhara desde que se mudara para Portugal. E então viu-a. Mesmo depois daquela curva poeirenta perto do lago, entre uma árvore de raizes promissoras e outra menos proeminente. O cabelo muito preso no cocuruto da cabeça dava ideia de ser mais pequeno do que realmente era, mas realçava-lhe os olhos arredondados como avelãs. A boca esguia esboçava um sorriso, o olhar dirigido para a palma da mão aberta, no que daria a entender ser um telemóvel. Pela mão livre trazia uma trela vermelha que terminava nuns arbustos avultos, no que daria a entender ser um cachorro arisco. Abrandou a corrida, passos largos no parque na direcção dela. Trazia vestido uma t-shirt de um azul turquesa e uns calções amarelos, a lembrar uma mascote que vira na t-shirt de um dos miúdos no parque. Sorria com a imagem, recordava agora que a mascote se tratava de um castor de olhos arregalados.
Já a poucos metros de distância, o cachorro sai dos arbustos e brinca nas suas pernas altas - é um dálmata bebé. A trela vermelha está agora enrolada no seu braço direito e na sua perna esquerda, como um laivo de sangue, mas ela parece não reparar.
- Ele deve ser muito bonito.
Ela soergue os olhos do telemóvel, no qual escrevia mecanicamente só com o polegar, e a surpresa do comentário eleva-lhe um pouco as sobrancelhas. Assim de olhos espantados, lembra o castor da mascote e ele não consegue evitar sorrir:
- O rapaz a quem escreves mensagens, deve ser muito bonito.
Continua confusa, agora semi-cerrou um pouco os olhos, já de si pequenos. Continua bonita.
- Desculpe?
A sua voz é mais profunda do que a sua frágil figura aparentaria. Um pouco rouca, mas quente como a tarde de Verão que se aproxima.
- Só assim se explica como não repara que tem o seu belo pequeno quase esganado.
Aponta para o pequeno dálmata, agora com as patas presas na trela e aspecto ofegante. Instintivamente, ela solta uma exclamação carinhosa e debruça-se sobre o animal. Pode ver-lhe o pescoço, cru como um pêssego careca. Quando o cachorro está de novo a salvo, levanta-se com rapidez e elegância. Encara-o um tanto ou quanto envergonhada.
- Ele nunca pára quieto e eu.. estava distraída. Obrigada.
Sorri-lhe. Não como quando encarara o telemóvel, com aquele brilho de entusiasmo, mas ainda assim um sorriso bonito.
- De nada...
Prolonga o som da vogal entredentes, na expectativa que lhe diga o seu nome.
- Rufus.
Pega no animal para o apresentar, segura-lhe uma das patas dianteiras em jeito de aceno. Ele não consegue evitar rir com a brincadeira - ao que parece são os dois muito ariscos.
- Bonito nome, Rufus. E não desistas!, vais ver que um dia a tua dona esquece-se do telemóvel em casa.
Dera ênfase ao "não desistas" e faz agora uma festa na cabeça do cachorro, que desaparece de vista de tão pequeno. Ela guardara o telemóvel no bolso, estende-lhe o braço.
- Maria. Maria João. Mas toda a gente me trata por João.
- Estranhos inclusive?
Pausa. Maria encolhe os ombros:
- Só os bem parecidos.
Aperta-lhe a mão com delicadeza, os dedos são finos e a sua pele é morna como água.
- Raúl.
Ter dito apenas o primeiro nome deixou-a espectante, pareceu intrigada.
- Um bom dia então, Raúl. Vamos Rufus!
Dá um leve puxão na trela e o cachorro espevita. Caminham lado a lado, afastam-se em direcção à multidão de miúdos. Bonés amarelos, bonés cor-de-rosa, t-shirts com castores de olhos esbugalhados. Azul-céu e amarelo-lima, pintas pretas num pêlo branco. Imagens soltas que lhe invadem a cabeça, enquanto agradece não ter trazido a bicicleta.
- Bom dia Maria, diz já falando sozinho. Não a tratará por João como qualquer um, porque qualquer um não quer ser. Fazer questão deste pormenor deixa-o espectante, parece intrigado consigo mesmo. Contava vir correr para o parque numa tímida manhã de Verão e, então, conhecera-a.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pausa.

Fui mestra nas palavras. Ditei-te vidas profanas como se sílabas pessoas fossem. Soletrei o teu nome ao contrário, troquei-te as voltas. Fui mestra em deixar-te à nora, navio preso na tempestade solta. Fui tempestade solta, náufrago de ti.
Fui mestra no amor. Dei o seu nome a toda a gente e a todos lhe quis chamar. Rimei a vontade de o ter com a fome de o procurar. Só mais tarde percebi que sou poetisa por linhas tortas, versos que se quebram na minha língua cansada. Parágrafos interrompidos, amores perdidos. Talvez os tenha levado o mar. Aos amores, às palavras. Vou com a maré, muda e sempre mudando.
Fui mestra, hoje aprendiz.